quarta-feira, 20 de junho de 2012

Assange entrevista No. 10: Imran Khan Niazi, candidato à presidência do Paquistão (Campeão Mundial de Críquete)


19/6/2012, Russia Today – 10º Programa  - Episódio 9, 27'30"
Transcrição traduzida pelo pessoal da Vila Vudu

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JULIAN ASSANGE: De origem humilde, meu convidado de hoje ganhou fama como capitão da vitoriosa seleção nacional paquistanesa de críquete. Abandonou o esporte e fundou o Partido Movimento pela Justiça, no ambiente político mais perigoso do mundo. Por muitos anos, seu partido, que lutava contra a corrupção no Paquistão, foi ignorado. Em 2007, em documentos do Departamento de Estado dos EUA, o partido de Khan apareceu descrito como “partido paquistanês de um só membro”. Mas o Paquistão está passando por mudanças muito rápidas. Nos últimos anos, a revolta generalizada contra os ataques dos drones dos EUA, atraiu milhões de seguidores para o partido de Khan. Hoje, nosso convidado aparece em primeiro lugar na lista de possíveis próximos governantes do Paquistão. Quero saber por quê.

IMRAN KHAN: Alô, Julian!

JULIAN ASSANGE: Imran!

IMRAN KHAN: Como vai?

JULIAN ASSANGE: Vou bem. Andei meio resfriado, mas acho que, meio rouco, minha voz soa ainda mais sexy [risos]. E aqui, tenho de competir com a sua voz.

IMRAN KHAN: Pensei que as coisas andavam interessantes, por aqui. Mas você... Sua vida está ainda mais interessante que a minha.

JULIAN ASSANGE: Bom... Os seus tempos interessantes são mais interessantes que os meus. Assisti aos vídeos do seu comício ontem à noite. Maravilhoso, mas, acho que... tome cuidado, para não ser explodido [Imran ri]. Quero dizer... Tomara que seus tempos interessantes não fiquem interessantes demais! [risos]

IMRAN KHAN: Ora, Julian, morrer, todos morremos. Melhor que seja por uma boa causa... Nós fundamos um hospital oncológico. Vi gente que entrou ali perfeitamente saudável morrer em seis meses. Hoje tenho outra atitude sobre vida e morte.

JULIAN ASSANGE: Temos pouco tempo e temos de aproveitar cada minuto.

IMRAN KHAN: Sim. Você não imagina o impacto que teve o seu WikiLeaks…

JULIAN ASSANGE: Imran, por favor, um minuto. A conexão caiu... OK, OK. Estamos reconectados.

IMRAN KHAN: Tive grande impacto em todo o mundo, mas no Paquistão... Descobrir que todos esses políticos hipócritas tinham acordos com os EUA, para dizer a eles, em segredo, como são maravilhosos... Depois, em público, contavam outra história. Sobretudo aquele religioso, um clérigo que lidera um partido religioso. Disse literalmente aos americanos: “Se me apoiarem e eu chegar a primeiro-ministro, farei o que quiserem.” Aqui, é visto como o político mais antiamericano que há! Foi genial. Realmente expôs a verdade sobre muita gente por aqui.

JULIAN ASSANGE: Imran, você pode nos falar sobre os principais centros de poder no Paquistão? É o Serviço Secreto, ISI? O Exército? A suprema corte? Os clãs tradicionais? Como você caracteriza a estrutura básica do poder no Paquistão?

IMRAN KHAN: Bem, a luta no Paquistão, como em todo o Oriente Médio, tem o mesmo caráter permanente e inalterável: as estruturas de poder apoiadas pelo establishment, contra a maioria das populações, que querem reformas. Isso exatamente é o que se vê em todo o Oriente Médio. Mas o ocidente pensa que o que está acontecendo aqui seria guerra entre fundamentalistas islâmicos, contra os liberais. Por isso, porque o ocidente não vê o que está acontecendo no Oriente Médio, a primavera árabe tanto surpreendeu o ocidente. A verdadeira linha divisória é a oposição entre o poder e os cidadãos. No Paquistão... Os que agora seguem o nosso partido são os mesmos, as mesmas pessoas que saem às ruas, em todo o Oriente Médio, gente que quer mudanças. Nosso movimento é contra o sistema. Sobre o status quo no Paquistão... Aqui temos máfias políticas. Todos os partidos políticos uniram-se contra mim.

JULIAN ASSANGE: E não é bom sinal? Se todos se unem contra você, é sinal de que estão com muito medo.

IMRAN KHAN: Ah, sim, estão aterrorizados, porque nossas manifestações de massa têm sido muito grandes, sobretudo as duas últimas, que organizamos, uma em Lahore e outra em Karachi. São manifestações comparáveis aos comícios organizados por Zulfikar Alí Bhutto, pai de Benazir, há 40 anos. E depois daqueles protestos, Zulfikar foi eleito, mesmo tendo sido subestimado. Era o azarão. Mas derrotou todos os demais partidos que se uniram contra ele. O sistema têm medo de que aconteça novamente.

JULIAN ASSANGE: Examinamos os documentos que WikiLeaks tinha da embaixada dos EUA em Islamabad, para saber o que diziam sobre você. Em 2007, o embaixador dos EUA escreveu: “Khan, cujo partido Movimento pela Justiça é na realidade espetáculo de um só ator, tem pouco a perder. Sua credibilidade baseia-se na figura de político que o próprio Khan inventou, de político fiel aos seus princípios. É popular entre os intelectuais paquistaneses e parte da Diáspora. Mas Khan nunca conseguiu converter-se realmente, de capitão-estrela da única equipe paquistanesa de críquete que conquistou o título de Campeão Mundial de Críquete, em líder de partido político eficaz”. Claro que a situação mudou muito. O que aconteceu nos últimos meses?

IMRAN KHAN: Bem, Julian, aconteceu que a mídia... No Paquistão, de repente, a partir de 2005 aumentou muito o número de canais independentes de televisão. E os programas de política nacional passaram a atrair grande número de telespectadores. Se se assiste à televisão no Paquistão, hoje, é como ter oito Jeremy Paxman [principal comentarista político e âncora de televisão do Guardian (Assange ri)], todos em horário nobre. Às 8h da noite, no horário nobre, todos os canais apresentam programas de atualidades políticas. Enquanto na Inglaterra por exemplo estão assistindo ao Big Brother, ou a telenovelas, no Paquistão, no horário nobre, as pessoas assistem a programas de debates políticos. A vontade de entender melhor a situação política é muito grande. Os telespectadores estão tão interessados que, aqui, esses programas de debates ocupam o horário nobre em vários canais e alcançam as maiores audiências.

JULIAN ASSANGE: E nos últimos seis meses? Foi quando aconteceu o maior aumento no número dos que seguem seu partido. As pesquisas de opinião que li dizem que você é o candidato preferido de 60-80% da população paquistanesa. Gostaria que você comentasse esse crescimento e que falasse sobre a experiência de tentar administrar uma organização que cresce tanto, tão rapidamente.

IMRAN KHAN: Em primeiro lugar, boicotei as eleições de 2008 porque aquelas eleições estavam sendo manipuladas pelo governo Bush, que intermediou um acordo entre Musharraf e Benazir, com todos os casos de corrupção de sempre. E não foi só. Musharraf também anistiou outros políticos corruptos, porque esse era o acordo com os EUA (recebeu o nome de “Ordenações da Reconciliação Nacional”). Quer dizer: em nome da reconciliação, os EUA uniram Musharraf e Benazir. Em seu último livro, Condoleezza Rice narra esses eventos como triunfo seu. Conta que Bush deu-lhe tapinhas nas costas, quando ela conseguiu unir Musharraf e Benazir. Eu e muitos outros partidos boicotamos aquelas eleições, porque sabíamos que tinha havido fraude pré-eleitoral. Meus índices de aprovação caíram, durante algum tempo, depois das eleições, porque decidimos não participar; mas depois começaram os problemas com os governos, porque quando aqueles criminosos chegaram ao poder, a corrupção bateu todos os recordes no Paquistão; quando os criminosos pagam para livrar-se de seus crimes [o crime vira mercadoria e] os crimes multiplicam-se. 

Logo depois, então, meus índices começaram a subir, porque as pessoas lembraram-se de que eu, quando boicotei as eleições, avisei que aquelas eleições se converteriam em terrível catástrofe para o povo paquistanês. O único interesse do governo Bush, o mais importante, era ter um fantoche. Musharraf opunha-se. Por isso queriam tirá-lo do poder. Mas precisavam de outro governo marionete semelhante ao de Musharraf,  para poder continuar com essa guerra contra o terror, em que nosso próprio exército matava nosso próprio povo.

[JULIAN ASSANGE: Sim.]

IMRAN KHAN: O que estou dizendo é que a corrupção alastrou-se, e a guerra contra o terror foi devastadora, para o Paquistão. 40 mil paquistaneses foram assassinados, numa guerra com a qual nada tinham a ver. Basicamente, sempre foi o nosso próprio exército que matava nosso próprio povo. Depois, começaram os atentados suicidas contra civis paquistaneses. O país perdeu 70 bilhões de dólares nessa guerra. Recebeu, de ajuda, no total, menos de 20 bilhões. Quero dizer: eu nunca parei de dizer sempre a mesma coisa, essas coisas. E, de repente, o que eu dizia há muito tempo começou a ressoar entre as pessoas. Há quase dois anos, meus índices de aprovação começaram a subir, nas pesquisas. Agora, depois das grandes manifestações de massa, o cenário mudou completamente. Os políticos querem aproximar-se, porque veem que os votos agora estão do meu lado. E os eleitores estão entendendo que tínhamos razão, desde o começo.

JULIAN ASSANGE: Ouvi dizer que o próprio Musharraf teria dito a você que: “Você, primeiro-ministro; eu, presidente.” 

IMRAN KHAN: [risos] É que... Musharraf não entende o que se passa no Paquistão, porque vive fora. Só sabe o que lê no Facebook. Não se dá conta de que no país, aqui no Paquistão, a situação é completamente diferente. Em primeiro lugar, aliar-se com ele significará risco ainda maior. Musharraf é o responsável pelo caos em que o Paquistão vive hoje. Ele é responsável por essa corrupção sem precedentes, porque foi quem anistiou todos esses criminosos. Em nenhum lugar do mundo anistiam-se os criminosos, para que possam outra vez participar de eleições e voltar ao poder. E há também a guerra ao terror. E Musharraf é responsável pelas duas coisas. 

JULIAN ASSANGE: Se se pensa, por exemplo, na União Soviética, onde também havia muita corrupção... As pessoas na Rússia diziam: “[há corrupção, mas] mercado negro, pelo menos, é algum mercado”. Queriam dizer... pode haver algum tido de comércio, as pessoas estão conseguindo escapar às regras que proibiam a propriedade e impediam qualquer empreendimento”. Qual é o verdadeiro problema da corrupção no Paquistão? Por que a corrupção prejudica o Paquistão?

IMRAN KHAN: Ofereço-lhe outra estatística: a dívida total que o Paquistão acumulou em 60 anos, chega a 5 trilhões, há quatro anos. Nos últimos quatro anos, essa dívida saltou, de 5, para 12 trilhões. E, agora, o país está pedindo empréstimos para saldar as próprias dívidas. Dos 1,8 trilhões do orçamento, o país consome 800 bilhões, metade do orçamento, só para pagar os juros da dívida; 600 bilhões destinam-se ao Exército; e 180 milhões de paquistaneses só podem contar com o que sobra, cerca de 200 bilhões. É fácil entender que o país não é viável. [ASSANGE: Sim.] No caso da Rússia, sempre foi possível seguir adiante. No Paquistão, não.  Estamos à beira do precipício, olhando o abismo. Estamos descendo pelo ralo. O país caminha para um caos absoluto. Não há dinheiro para fazer funcionar o país. Atualmente, não temos dinheiro nem para pagar pelo petróleo que temos de comprar para gerar energia. Como o governo não tem dinheiro para comprar petróleo, sem o qual não se gera energia... há racionamento de eletricidade, ‘apagões’ de quase 14 horas.

JULIAN ASSANGE: 14 horas diárias sem energia. Mas há evasão de impostos; e há o assalto ao Tesouro, é outra coisa. De fato, parece que os pobres e os remediados de classe média são os mais atingidos, porque o dinheiro é roubado deles e transferido para os mais ricos, no Paquistão. E o verso dessa mesma moeda? E quanto ao dinheiro que já saiu do Paquistão e está depositado em bancos londrinos, suíços ou em empresas norte-americanas?

IMRAN KHAN: São duas coisas. Primeiro: pela falta de dinheiro para comprar combustível para os geradores de energia, a eletricidade tem de ser racionada e é cortada durante 14-15 horas por dia, 18 horas nas áreas rurais. Significa que os agricultores não podem acionar os sistemas de irrigação e rega; significa que fábricas e indústrias têm de cerrar as portas; com isso veio o desemprego em massa. E, tudo isso, além da inflação. Até aí temos um dos lados dos males que a corrupção fez e faz ao Paquistão. O outro lado da corrupção é que a maior parte do dinheiro que sai do país acaba em bancos suíços. A maioria da elite política do Paquistão... Sou o único líder político que ganhou o próprio dinheiro fora do país, mas trouxe para o Paquistão o dinheiro ganho fora daqui. Tudo que tenho está hoje no Paquistão, tudo oficial, declarado e em meu nome. Só eu. Os demais líderes políticos, chefes partidários, todos eles, mantêm contas bancárias no exterior, têm imóveis e outros tipos de bem não declaradas, no exterior... Por esse caminho, a maior parte do dinheiro é desviado para fora do país.

JULIAN ASSANGE: Passemos aos EUA. Fale sobre o assassinato de Osama Bin Laden no Paquistão. O que se pensava no Paquistão? Que os serviços de inteligência paquistaneses escondiam Bin Laden, ou que são incompetentes? Por que Osama Bin Laden estava no Paquistão?

IMRAN KHAN: Julian, o que você precisa entender é que Osama Bin Laden, como toda a Al-Qaeda, foram treinados pelo Serviço Secreto paquistanês e pela CIA e ISI, há vinte anos. Essas pessoas pertenciam ao exército paquistanês, eram parte dele. Foram treinados pelo exército do Paquistão e pelo Serviço de Inteligência, com financiamento da CIA, há 30 anos. E lutaram contra os soviéticos e durante muito tempo todos esses grupos tiveram relações muito próximas com as agências do serviço secreto do Paquistão. Até que acontece o 11/9, e tudo dá um giro de 180 graus, quero dizer: Musharraf deu um giro de 180 graus. Mas não significa que todos tenhamos aceitado esses fatos. Porque aqui no Paquistão havia pessoas que estavam sendo treinadas para a Jihad, que, nesse caso, significava lutar contra a ocupação estrangeira. Haveria melhor modo de convencê-los, não só os grupos armados, mas também os grupos militares, de que lutar contra a ocupação estrangeira era dever religioso?

JULIAN ASSANGE: Talvez tenha havido ajuda de agentes dos serviços de inteligência. Talvez gente que o conhecesse do passado e continuasse leal.

IMRAN KHAN: Claro. As pessoas que entendiam que combater outra ocupação estrangeira – que, agora, é a ocupação pelos EUA – também fosse dever religioso. Claro que é possível.

JULIAN ASSANGE: E o sentimento é qual? Há o sentimento de que os EUA estão ajudando a eliminar terroristas no Paquistão? Ou há a ideia de que o ataque dos EUA para assassinar Osama bin Laden foi violência cometida contra a soberania do Paquistão?

IMRAN KHAN: O sentimento no Paquistão foi de máxima humilhação. Somos um país que, até aquele momento havia perdido 35 mil vidas, dos paquistaneses que lutaram a guerra dos EUA, e, como já disse, o país perdeu muito mais também em termos econômicos, se se compara o que o Paquistão deu e o que recebeu como ajuda. O governo aumentou o total da ajuda, apresentada como se fosse de 70 bilhões, quando, de fato, a ajuda não chegou nem a 20 bilhões. Por tudo isso, pode-se dizer que o Paquistão era um país que se estava sacrificando pelos EUA. E precisamente esse nosso aliado nos trai, não confia em nós. De fato, invade território do Paquistão e mata uma pessoa que vivia em nossa terra. 

No Paquistão as pessoas sentem que dois fatores se combinaram: (a) o Paquistão fizemos todos os sacrifícios; e
(b) temos um aliado que... Afinal, os EUA é país aliado ou é inimigo do Paquistão? Deixemos de lado o que o governo disse. Estou falando sobre os sentimentos populares, do povo que, de fato, não sabia o que estava acontecendo.

O Exército foi acusado: os paquistaneses queriam saber por que o exército do Paquistão não ajudou Bin Laden... [JULIAN ASSANGE: Sim.] Se foram incompetentes ou se estavam mancomunados com os EUA. Mas e as pessoas, o povo? O povo sentiu-se humilhado. Houve reação muito forte, provocada por esse sentimento de humilhação.

JULIAN ASSANGE: E o que você pensa sobre os EUA dizerem que Osama Bin Laden seria o terrorista responsável pela morte de muitos cidadãos norte-americanos, motivo pelo qual os EUA teriam direito de assassiná-lo...

IMRAN KHAN: O que estou dizendo é que a guerra ao terror não é... A confusão está em que alguns defendem que a guerra ao terror só pode ser vencida com bombas, matando muita gente; de fato, essa é guerra que só pode vencer se se conquistam corações e mentes. Se você perde essa guerra pelos corações e mentes, não há como deter a violência. E a guerra aqui está hoje mais radicalizada, mais polarizada hoje, que há oito anos. Não importa o que se faça, a guerra não é solução para nada. Fracassamos durante oito anos, os EUA fracassaram durante 11 anos. Vamos afinal fazer algo de diferente? Como disse Einstein, “loucura é fazer alguma uma vez e repetir tudo, e esperar resultados diferentes”. Nunca acontecerá. Não há solução militar possível. A única saída terá de ser uma solução política. Não temos políticos que tenham credibilidade e sejam capazes de fazê-lo. Precisamos de eleições, precisamos de governo confiável e espero que nós sejamos eleitos. Começaremos um diálogo político. Vamos ajudar os EUA, numa estratégia para saírem do Afeganistão. Não há outro meio de resolver.

JULIAN ASSANGE: Imran, encontramos um documento da embaixada dos EUA em Islamabad em 2009. O primeiro-ministro Gillani e o ministro do Interior Malik foram à embaixada e oferecer partilhar o NADRA – o sistema de registro de todos os eleitores paquistaneses. Então foi criada no Reino Unido uma empresa-fantasma – Serviços Internacionais de Identidade – que foi contratada como empresa consultora, como se trabalhasse para o sistema NADRA, para roubar esses dados eleitorais do governo do Paquistão. Vejo isso como roubo de patrimônio nacional, de um tesouro nacional do Paquistão; o objeto do roubo foi a base de dados em que se arquivavam todos os dados eleitorais do país.

IMRAN KHAN: Julian... É uma vergonha. É muito vergonhoso. Nunca uma elite governante, servindo só aos seus próprios interesses, traiu tão completamente o povo, como a elite que se constituiu durante o governo de Musharraf e a elite que há hoje no Paquistão. Fizeram isso e fizeram até pior que isso. Há listas imensas de pessoas desaparecidas no Paquistão, paquistaneses nascidos aqui, ou de origem paquistanesa, entregues aos EUA porque havia quem suspeitasse que estariam envolvidos em atividades terroristas. E as pessoas sumiam, eram eliminadas. Os suspeitos eram assassinados em ataques de drones, os teleguiados dos EUA. Os suspeitos, esposas, filhos, vizinhos. Nunca houve processo ou qualquer chance de defesa. Nenhum país foi mais bombardeado por país vizinho, como o Paquistão. Já lhe disse: aquele foi o período mais vergonhoso da história do Paquistão. Nunca algum governo traiu tão completamente o próprio povo como o governo atual, a elite atual. Traem o povo por interesses próprios, porque todos têm dinheiro no exterior e... adivinhe: sabe quem sabe tudo sobre as contas bancárias deles todos? Claro: os EUA. São fundos ilegais: o dinheiro não pára de fluir para fora do país.

JULIAN ASSANGE: Como você pensa agir para reconfigurar as relações entre o Paquistão e os EUA? Você pensa em romper relações? Proibir ataques dos drones? Que tipo de cooperação entre os serviços de inteligência se deve esperar? Na prática, o que você fará?

IMRAN KHAN: Quero relações baseadas em dignidade e respeito. Como as relações que os EUA têm com a Índia. Não tem de ser relação do tipo proprietário/servo, ou, o que é até pior, não se admite mais que o Paquistão seja ‘pistoleiro contratado’ para matar os inimigos dos EUA. Não. Esse é o tipo de relações que fracassou. Não beneficia nem o povo paquistanês nem os EUA. Bastará dizer aos EUA: “Olhem: de nosso lado, não haverá terrorismo”.

Mas essa relação só será possível se já não nos virem como fantoches dos EUA. Só um governo soberano e confiável pode lutar contra o terrorismo. Hoje, os terroristas já estão em Jihad declarada contra o governo do Paquistão, matam soldados e policiais, porque estariam colaborando com os EUA. Isso significa que, se se puser fim à guerra atual, põe-se fim também à Jihad. Com o fim da Jihad será possível saber quem são os verdadeiros inimigos, cá dentro das nossas fronteiras. E só depois disso será possível assegurar que, da parte do Paquistão, não haverá terrorismo. Por tudo isso, o primeiro passo é afastar o Paquistão dessa guerra que não é nossa. Não ajudar a manter a guerra. Somos estado soberano independente. Nossas relações com os EUA têm de basear-se na dignidade e no auto-respeito. Não podem continuar a ser relações de senhor-servo.

JULIAN ASSANGE: É boa explicação de como a guerra ao terror pode ser contraproducente. Porque se criou muita inimizade contra o governo paquistanês. Morreram 35-45 mil paquistaneses... Por que, na sua opinião, os EUA não mudam sua agenda e continuam com os ataques dos aviões-robôs comandados a distância, os drones, matando gente no Paquistão, mesmo depois de o próprio embaixador dos EUA já ter opinado que esses ataques são contraproducentes? O que motiva, afinal, os EUA?

IMRAN KHAN: Bom, Julian, acho que é como no Paquistão: nos EUA, quem dita as políticas é o Pentágono. Os militares traçam as políticas, porque só os militares só pensam em soluções militares e não há o menor ‘perigo’ de que considerem qualquer solução não militar. Se se pensa no Vietnã, e se ouve... acho que foi o general McNamara, um daqueles generais… Lembro que, há muito tempo, nos anos 60, os militares dos EUA diziam: ‘viramos a esquina, estamos a um passo de vencer a guerra, só mais alguns poucos soldados, mais um pouco de bombas... e pronto, vencemos a guerra”. Os generais sempre pensam assim.

JULIAN ASSANGE: Uma última pergunta Imran. Você esteve recentemente com Abdul Qadir Jan? Qual sua opinião sobre o “pai da bomba nuclear paquistanesa”?

IMRAN KHAN: Estive reunido com Jan, não recentemente, mas há cerca de dois anos. Conheço-o há mais de 20 anos, porque foi quem primeiro ofereceu uma doação para o hospital. Quando comecei a construir o hospital de Oncologia, ele foi o primeiro que apareceu para ajudar. É um herói. O povo paquistanês o reverencia como herói, admirado no país, porque todos o veem como alguém que encontrou meio para garantir segurança ao Paquistão. Pode-se dizer aqui o mesmo que dizem os israelenses: precisamos da bomba, porque estamos rodeados de inimigos hostis. O Paquistão passou por três guerras com a Índia, cujo território é sete vezes maior que o nosso; o Paquistão padece de grave falta de segurança. E Jan foi visto como o homem que teria de dar segurança ao país. Então, se se considera esse ponto de vista, é uma herói. Pessoalmente, não sei o que penso dele. Estava ou não envolvido nesse assunto da ‘proliferação’? Há dois pontos de vista. Um, dos EUA e de Musharraf; outro, do próprio Jan, que dizia: “Posso provar que nunca estive envolvido nisso.” Mas não sei... Na televisão, ele, sim admitiu que estava metido naquilo; mas disse que foi obrigado por Musharraf. Não há como descobrir que verdade esconde-se por trás disso tudo, Julian. Pessoalmente, sou contrário a armas nucleares. Sou absolutamente favorável à destruição de todos os arsenais nucleares, um mundo sem armas nucleares.

Mas no atual momento, considerando a situação que atravessamos, as pessoas lembram que, desde que temos a bomba, embora tenha havido tensões e algumas escaramuças, nunca mais houve guerra, embora tenhamos chegado perto. Antes das armas nucleares, foram três guerras. [JULIAN ASSANGE: Sim.] Esse argumento sempre aparece, se se fala dessa questão.

JULIAN ASSANGE: Imran, muito obrigado.

IMRAN KHAN: Agradeço também. Desejo o melhor possível a você, porque entendo que você fez algo muito muito grande. O que você fez com WikiLeaks... forçar a liberdade de informação... Nada pode ser mais importante, porque, basicamente, todos somos controlados por pessoas que têm as informações. Parece que aí está o verdadeiro poder. Como já disse, aqui no Paquistão quem mais se beneficiou diretamente, depois da divulgação dos telegramas, fui eu. Aqueles mafiosos mantinham toda e qualquer informação sob controle deles. Sem WikiLeaks, eu e muitos como eu nunca teríamos podido estar na posição em que estamos hoje no Paquistão. Agradeço mais uma vez. Boa sorte.

JULIAN ASSANGE: Obrigado, Imran. Boa sorte.

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