quarta-feira, 16 de maio de 2012

Assange: “The World Tomorrow” - 5º Programa


Entrevista com Moazzam Begg e Assim Qureshi (sobreviventes de Guantánamo)

5/5/2012, Russia Today
Vídeo e entrevista transcrita e traduzida pelo pessoal da Vila Vudu  (27’50”)

 

 

ASSANGE:Essa semana, recebo dois convidados:

Moazzam Begg passou vários anos preso em Guantánamo, como suspeito de ser membro da Al Qaeda. Depois de forte pressão, o Reino Unido conseguiu que os norte-americanos o libertassem, em 2005, sem que jamais tivesse havido qualquer acusação formal contra ele.
Associado a Assim Qureshi, ex-advogado de empresas, Begg faz hoje campanha pela libertação de outros prisioneiros da guerra contra o terrorismo. Para tanto, fundaram a organização Cageprisioners [Prisioneiros da Jaula], organização islâmica pró Direitos Humanos. A organização exige respeito ao regime legal vigente, com o justo processo legal garantido para todos os prisioneiros. O que quero que me expliquem é como essa exigência, central no trabalho que fazem, pode conviver com a Xaria, a lei islâmica. Quero saber também como seria o sistema legal do Califato Islâmico, caso muçulmanos venha a formar um superestado.

ASSANGE: Moazzam, quando você estava preso em Guantánamo assinou a seguinte confissão:

“Eu estava armado e preparado para lutar ao lado do movimento Talibã e da al-Qaeda, contra os EUA e outros. Depois, me recolhi a Tora Bora, quando nossa linha de frente foi derrotada. Conscientemente prestei ajuda a membros da al-Qaeda, encontrando alojamento para seus familiares, e ajudando a distribuir propaganda da al-Qaeda; e recebi membros dos campos terroristas da al-Qaeda, sabendo que alguns recrutas poderiam vir a ser operadores da al-Qaeda e cometer atos terroristas contra os EUA.”

Assange: Esse modo de falar... Você fala assim, no dia a dia?

MOAZZAM BEGG:Não, não, é claro que não falo assim.

ASSANGE:Soa como se fosse peça de processo, redigida por advogados.

MOAZZAM BEGG: Só assinei esse documento, porque estava com as mãos e os pés amarrados às costas; com a cabeça coberta por um saco; e estava apanhando por todos os lados, socos e pontapés, que não sabia de onde vinham, enquanto ouvia uma mulher gritar próximo de mim e me haviam convencido de que seria a minha mulher. Quando descobriam minha cabeça, mostravam fotos dos meus filhos. E diziam: “Você acha que ainda os encontrará vivos?” “Acha que os deixamos em casa, depois que tiramos você de lá?” Acabei convencido do que eles queriam me convencer: que ou eu assinava o que me mandassem assinar, ou provaria que não me interessava pelo futuro da minha família. Tive de escolher entre essas alternativas. E assinei, claro. Assinei.

ASSANGE: Quando você afinal saiu de Guantánamo, uniu-se à organização Cageprisioners [Prisioneiros da Jaula], e passou a defender outros prisioneiros que você conhecera em Guantánamo ou em outros lugares, sempre exigindo que os prisioneiros contra os quais não haja nem acusação nem processo, têm de ser postos em liberdade.
Há aqui um fato incrível: em 2010, WikiLeaks encontrou um telegrama da Embaixada dos EUA em Luxemburgo, dirigido a Washington. O telegrama diz que você visitou Luxemburgo, numa campanha para que Luxemburgo libertasse os prisioneiros de Guantánamo:

“Mr. Begg está fazendo nosso trabalho por nós. É irônico que, depois de quatro anos de prisão e alegadas torturas, Moazzam Begg dedique-se hoje a dizer ao governo de Luxemburgo o mesmo que nós também dizemos. Por favor considerem a possibilidade de aceitar o reassentamento dos prisioneiros de Guantánamo”.

Como você se sente, sabendo que o governo Obama agora o vê como seu embaixador?

MOAZZAM BEGG: É... Nada bom para a minha credibilidade nas ruas. Se as pessoas levassem e a sério o que o embaixador dos EUA diz, seria ruim. Mas não há dúvida de que os EUA ainda me veem como combatente inimigo.

ASSANGE: Vamos falar desse enfoque extremo. O papel de Cageprisioners é conseguir libertar os prisioneiros presos sem processo, acusação ou sentença; e, pelo menos nos casos em que haja processo, encarregar-se da defesa deles.
Mas, atualmente, o governo dos EUA está usando drones e mísseis para matar muçulmanos radicais por todo o mundo. Cageprisioners ainda tem trabalho? Quero dizer... prisões como a que existe na baía de Guantánamo converteram-se em grave problema político. Mas se os EUA matam o suspeito... não há ninguém a prender e acabou o problema político.

MOAZZAM BEGG: Bom seria que não tivéssemos trabalho, quero dizer, seria ótimo se não houvesse ninguém preso ilegalmente. Trabalhar com os presos e com os familiares dos presos que defendemos é trabalho muito doloroso. Antes, se dizia que Bush era o presidente ‘dos EUA da detenção extrajudicial’. Hoje já se diz que Obama é o presidente ‘dos EUA da matança extrajudicial’. E Obama prometeu mudanças. Disse que, com ele, chegava a mudança aos EUA. A única mudança que se vê é que a detenção extrajudicial converteu-se em matança extrajudicial.

ASSANGE: Assim, em 2006, numa manifestação, você disse palavras muito duras:

“Quando vemos nossos irmãos lutando na Chechenia, Iraque, Palestina, Caxemira, Afeganistão, sabemos de onde recolher o exemplo. Quando vemos o Hizbollah, derrotar o exército de Israel, sabemos qual é a solução e onde está a vitória. Sabemos que é nosso dever comum apoiar a Jihad dos nossos irmãos em todos os países onde enfrentam a pressão do ocidente”.

Assisti ao vídeo. E, sim, tive a impressão de que se tratava de um muçulmano exaltado pregando a Jihad. Por que disse isso?

ASSIM QURESHI: Aconteceu no contexto em que os israelenses haviam bombardeado Cana, mataram multidões de civis. Foi em 2006. Agora, o que se tem de entender é que, até hoje, os muçulmanos continuam a ser atacados, em diferentes países, por todo o mundo. Centenas e milhares de pessoas continuam a morrer. Na realidade, nosso conceito de Jihad, na interação atual, significa que os muçulmanos têm  pleno direito de defederem-se. Estão sendo mortos, num processo de ocupação, de dominação colonial, no qual o racismo sempre está presente. Não faz sentido algum dizer a essas pessoas que não se podem defender, que não têm direito de lutar por sua legítima defesa. Que alguém, por sua vez, teria direito legítimo de condená-las, de matá-las, de prendê-las, sem lhes garantir direito de defesa.

ASSANGE: Mas defesa, nesse caso, quer dizer resistência militar.

ASSIM QURESHI: Claro, todos esses países devem resistir. Quero dizer que... O fragmento que você leu não é todo o discurso. Naquele discurso, eu disse também que nós, como muçulmanos no Reino Unido, temos de apoiá-los, defendê-los, fazer campanhas, fazer todo o possível pra apoiá-los outros muçulmanos que estão em guerra. Estou plenamente convencido que isso é parte de nosso dever, de nossa obrigação.

Mas nada disso implica dizer que eu ache que a única solução seja o conflito. Somos contra a ideia de que a única solução seja o conflito. Pessoalmente, eu, particularmente, não acredito na violência como única solução. Para mim, a única solução é o diálogo. Mas, ao mesmo tempo, também acredito que todos têm direito de defender-se.

ASSANGE: Mas quanto a essa defesa, na Chechênia, por exemplo, onde foi atacada uma escola..., mais de 300 pessoas morreram. Quero dizer, na Chechênia, há problemas militares...

ASSIM QURESHI: Claro...

ASSANGE: ... para a população russa. Mas como se pode dizer que aqueles terroristas chechenos estariam defendendo, daquele modo, a Chechenia? É essa a defesa que você aceita?

ASSIM QURESHI:   Não se trata de “eu”. Não estou dizendo que esses métodos estejam de acordo com o que eu penso, pessoalmente. Pessoalmente, não creio que aquele seja o modo islâmico de fazer as coisas. Mas não vivo naquelas circunstâncias.

E não posso fazer análises islâmicas, do ponto de vista jurídico, sobre coisa alguma, não sou especialista, erudito muçulmano. Não posso dizer que esse modo seja ou não seja o modo islâmico correto de fazer as coisas. Mas, sim, tenho discordâncias pessoais. Não concordo com tudo. Não concordo com o que Al-Qaeda faz pelo mundo. Não acredito que seja produtivo, em relação aos objetivos que querem atingir.

Mas ao mesmo tempo, no conceito geral, do qual se tratava, naquele discurso, acredito que as pessoas têm o direito de defender-se, não se pode simplesmente negar-lhes esse direito... Porque os EUA supõem que tenham toda a autoridade moral do mundo. Esse é o meu ponto de vista.

MOAZZAM BEGG: Tenho algo interessante a dizer sobre a Jihad, porque é palavra usada de forma tão errada, tão abusiva, que as pessoas não entendem o que realmente significa. Não negamos que apoiamos a Jihad, isso é claro. O governo britânico também apoiou a Jihad; reuniu combatentes mujahedin nos anos 70 e 80, e foram treinados pela Força Aérea Britânica [no....]. Há apenas alguns meses, novamente governos ocidentais apoiaram os combatentesmujahedin – ou que eram chamados de mujahedin – na Líbia, contra Gaddafi.

Os meios de comunicação fazem esse jogo de palavras: a Jihad é sempre má, exceto quando [os meios de comunicação] a declaram boa.

Aí está mais uma coisa que nós, como ex-prisioneiros e como organização muçulmana, trabalhamos para explicar às pessoas: que os políticos e os meios de comunicação enganam as pessoas quando usam a palavra Jihad.

ASSANGE: Preciso fazer duas perguntas difíceis. Se eu estivesse entrevistando Bush, ele provavelmente diria que não houve ataques terroristas significativos nos EUA depois de 2001. Argumentando a favor dele próprio, ele responderia que teve sucesso, porque usou todos os tipos de vigilância, aterrorizando os norte-americanos, aterrorizando as pessoas, de modo absoluto, com Guantánamo (prisões sem acusação formal, condenações sem julgamento, execuções arbitrárias.

MOAZZAM BEGG: Acho que não posso responder sua pergunta, sobre se Bush agiu corretamente. Houve outro Bush antes dos ataques. Não sei se foram medidas corretas a tomar contra o terrorismo. Mas é interessante: há estudiosos especialistas em Al-Qaeda na Arábia Saudita, que, sim, dizem, sobre Bush: “Nos alegramos quando [Bush] chegou ao poder, porque parecia ser alguém que pensava como nós”.

ASSANGE: Há eruditos que diziam isso?

MOAZZAN BEGG: Sim, sim, há. Depois, Bush disse “Essa cruzada vai demorar algum  tempo”. E foi nesse momento, depois de Bush dizer isso, que tudo começou a dar errado.

ASSANGE: E bin Laden? Quem disse que bin Laden fez tudo certo?

MOAZZAM BEGG: Bem... Se você pensa no que ele fez quando os soviéticos ocuparam o Afeganistão, e os EUA não apoiavam os soviéticos, é evidente que sim, bin Laden fez tudo certo, e o apoio do Ocidente o legitimou. Disso, há muitas provas.

ASSANGE: Não estou dizendo que o ocidente pense assim. Quero saber o que vocês pensam.

MOAZZAM BEGG: Claro, entendo. E concordo. Entendo que os afegãos, para livrarem-se dos soviéticos, tenham buscado todos os apoios dos que desejassem apoiá-los. Naquele momento, bin Laden estava certo. Mas, quanto aos ataque do 11/9, quanto a bin Laden ter ordenado os ataques – se é que ordenou algum ataque –, ainda não sei. Minha opinião ainda não está definida, porque bin Laden não foi julgado, ele não teve julgamento justo. Mas acho que, se ordenou os ataques, fez errado; porque iniciou uma reação em cadeia da qual ainda não conseguimos nos recuperar até hoje.

ASSANGE: E o que você pensa de bin Laden como líder? Por que teve êxito?

MOAZZAM BEGG: Em primeiro lugar, não sei se foi líder. Acho que o mito perpetuador da al-Qaeda no Magreb, depois também na Europa e todas as franquias de al-Qaeda, formaram-se de coisas como... “Se todos dizem que somos al-Qaeda, então seremos al-Qaeda”. Mas realmente não acredito que tenha acontecido do modo como nos contaram. Há um mito sobre a extensão do alcance e da influência de bin Laden como pessoa, como líder. Se você se aprofunda no mundo muçulmano, há atitudes muito diferentes. A maioria das pessoas não concorda com os ataques de 11/9, não concorda com matar civis, não concorda nem aceita absolutamente nada disso.

ASSANGE: Qual era a opinião no mundo muçulmano sobre bin Laden, antes do 11/9? Era conhecido?

MOAZZAM BEGG: Acho que não, acho que não era conhecido. Talvez, pode ser, talvez fosse conhecido nos países do Golfo; dos que foram parte da luta da Jihad, contra os soviéticos; é possível que fosse conhecido entre essas pessoas. E com certeza [se fosse conhecido] seria respeitado pelo sacrifício pessoal, pela integridade moral, pelas várias atitudes que teve, e que o povo não esperava de um multimilionário.

Mas, depois disso, acho que passou a ser apresentado como algo maior do que realmente algum dia foi. Os EUA não atacaram diretamente bin Laden: saíram à caça de nações inteiras e mataram dezenas de milhares de pessoas, nesse processo. Não faria diferença alguma se bin Laden estivesse aqui ou acolá; seria irrelevante. Os sintomas dos quais bin Laden falava continuam aí.

ASSANGE: Como vocês se autodescreveriam, os traços principais: como muçulmanos, como libertadores, como gente que gosta de viver sob leis rígidas? Como intelectuais?

MOAZZAM BEGG: [pensa um segundo] Tudo isso junto [risos].

ASSIM QURESHI: Acho que essas coisas não se excluem. Ser muçulmano significa postar-se a favor da justiça, ser um pouco radical, mas também significa ser um pouco conservador. Tudo isso ao mesmo tempo. Sabe... Deus disse, no Corão “Sê justo, ainda que te prejudique.” É lição muito, muito importante. Parte do que somos, do que nos caracteriza aí está: é preciso ser justo em qualquer circunstância inclusive quando se tenha de exibir prova contra si mesmo. Nosso caráter é formulado assim. Em muitos sentidos, a justiça é mais importante que outras coisas.

ASSANGE: Na luta para libertar pessoas das prisões, e sabendo-se que vocês dois já foram prisioneiros... Vocês entendem que a luta pela liberdade de pessoas e de grupos de pessoas... Vocês acham que esse trabalho seria incompatível com a submissão a um deus?  

MOAZZAM BEGG: [sorriso] Estamos na Grã-Bretanha e temos de tratar com pessoas que têm outros interesses, outros governos, para...

ASSANGE: Para mim, lamento, mas acho desconcertante, incômodo. Vocês não veem assim – ter de submeter-se à vontade de Deus?

MOAZZAM BEGG: Bem... Como seres humanos, sempre temos de nos submeter a algo, a algum tipo de lei, de algum modo. Meu enfoque parte do mundo muçulmano, não falo do Ocidente, porque o Ocidente não precisa preocupar-se com as comunidades muçulmanas que vivem aqui. Entendemos as leis e as normas e entendemos que temos de aceitá-las, mesmo que, em alguns casos, não nos agradem.

Mas se estamos falando do mundo muçulmano – e é importante reconhecer que o mundo muçulmano vai do Magreb à Indonésia; estamos falando de 1/5 da população do planeta, e isso sem considerar...

ASSANGE: [interrompe] Sim, sim, mas... E o que querem? Querem mais leis?

MOAZZAM BEGG: Estou dizendo que querem que todos esses muçulmanos desejam que o Islã e a religião sejam parte da vida da população do mundo muçulmano, em termos de governança e em termos de vida cotidiana. Entendo também que isso é uma escolha que todos devem respeitar. O problema é que não a temos respeitado, nos últimos cem anos.

ASSANGE: O que pensam do projeto de unir os muçulmanos num califato islâmico, sob a ideia central de um regime de lei que já existe, a lei da Xaria? Para vocês, é uma possibilidade?

ASSIM QURESHI: Acho que, se consideramos o modo como as comunidades islâmicas vão-se desenvolvendo no mundo, agora, especialmente a Primavera Árabe, os árabes terão muito assunto sobre o qual refletir.

São muitos fenômenos muito diferentes, que emergem em diferentes países. E muito diferentes. O que acontece em Túnis, com Rashid Al-Ganushi [PartidoEnnahda], é muito, muito diferente do que acontece no Egito, agora com os irmãos da Fraternidade Muçulmana e o partido Nur.

O que estamos vendo agora... Muitos muçulmanos, sim, generalizando, estarão de acordo com a união de todos os muçulmanos e o restabelecimento de um califato islâmico. É uma postura ortodoxa, possível para muita gente. Mas, na base dessa postura, a questão é como formular essa ideia, em termos que faça sentido no mundo moderno?

Temos agora de observar os muçulmanos em todo o mundo, com todas as suas diferenças. O que acontece em Túnis, o que acontece no Egito, o que acontecer na Líbia, agora que tentam organizar-se melhor. Porque todos esses muçulmanos estão tendo autoridade e direito, pela primeira vez, para tentar compatibilizar o que exige a lei islâmica, a Xsária, e o fato de viverem no mundo ocidental, eu diria, no mundo moderno.

ASSANGE: Como seria para vocês o sistema ideal? Seria uma Common Law? A lei islâmica, Xária? Um amálgama de ambas?

MOAZZAM BEGG: Essas são perguntas grandes demais. Nós lutamos, sobretudo, contra a detenção de pessoas comuns, sem cargo algum. Nos dedicamos a isso. E não, absolutamente, não é parte de nosso trabalho resolver todos os problemas do mundo. Se quer minha opinião pessoal, estritamente pessoal, posso dizer que, na minha opinião, creio que esse seja o grande temor. Quando falamos do sistema de califato, todos se apavoram. E o que seria isso? Seria uma união de países onde todo mundo falaria árabe? Pelo amor de Deus! Claro que não! Na Europa temos 15 línguas diferentes, e as pessoas estão tentando unir-se, pôr fim às fronteiras nacionais, deixar de ter estados e passar a ter o mesmo sistema monetário...

ASSANGE: Estão tentando fazer uma União Europeia, o que eu acho uma pena.

MOAZZAM BEGG: Mas há tratados que permitem que as pessoas viagem de um país a outro sem obstáculos.

ASSANGE: Não sei... Ainda não estou convencido de que esses superestados sejam o modelo a seguir.

MOAZZAM BEGG: Tudo bem. Mas a diferença importante da qual estou falando é a seguinte: o que une, hoje, Iraque e Marrocos? A cultura e, mais importante, a língua. Chega-se a qualquer daqueles países e fala-se árabe. E a língua é instrumento de criação de sociedades. A Europa, por exemplo, é dividida, sobretudo, pela língua. Aqui, a língua nos separa. No mundo árabe, essa ‘união’ já existe, é uma união histórica. Já havia antes e...

ASSANGE: Ora, mas... Quem fala árabe, sempre falou árabe. Qual é a novidade do califato?

MOAZZAM BEGG: A novidade não é do califato. A novidade é da Europa, que inventou os nacionalismos. A união árabe não parte dos nacionalismos nem de alguma reação aos nacionalismos. O mundo árabe não conhecia o nacionalismo, até que chegou alguém, tomou o mapa da África, traçou linhas e decidiu: aqui é Líbia, aqui é Argélia etc. A questão hoje é que, se os árabes voltarem a encontrar algum tipo de unidade, terão muito poder no mundo contemporâneo. E isso talvez seja o que mais preocupa o ocidente: que haja mais uma grande potência estabelecida naquela região do mundo, como um obstáculo imprevisto que não desejam ter.

ASSANGE: E que tipo de regime de lei vocês conceberiam? [ASSIM QURESHI: Com licença, um minuto...]. Se fossem Alá por um dia... Não, não estou dizendo que deva ser fácil de fazer, nem que se deva ou não fazer. Só quero saber: se fossem Alá por um dia, o que fariam? [risos]

ASSIM QURESHI: Bem... Nós não usamos exatamente esses termos [risos] de referência. Mas o Islã é um sistema normativo legal, como qualquer outro estabelecido pela jurisprudência, como qualquer outro sistema normativo legal que há no mundo. Portanto, há leis que temos de seguir. Em muitos aspectos surgem guerras sobre como os islâmicos executam a lei Xaria, porque contraria o que algum sistema legal local, em algum caso, prevê. Por exemplo, a pena de lapidação por adultério. Os requisitos de prova são tão difíceis de cumprir – 4 testemunhas visuais, presenciais, do ato sexual, onde tenha ocorrido. É impossível satisfazer essa exigência de prova, a menos que se trate de alguma ‘festinha’ perversa.

ASSANGE: Mas nesse caso, se se conseguir provar, admite-se que se execute alguém a pedradas?

ASSIM QURESHI: Sim. A ideia de que a pena tem de ser aplicada, sempre que o processo tenha sido sem vícios, é legítima. Aplicar a pena significa que a lei foi considerada e usada. Mas é impossível aplicar o critério probatório standard... 

ASSANGE: E nesse caso, você estaria de acordo?

ASSIM QURESHI: Porque, na verdade, essa situação não era prevista...

ASSANGE: Mas você estaria de acordo?

ASSIM QURESHI: Estou de acordo com o conceito islâmico de como praticamos os castigos, falando em geral do que são os castigos; e sejam ou não aplicáveis.

ASSANGE: Só estou dizendo que é importante. E, em todo o caso, já se vê a diferença entre sua opinião pessoal e a opinião da organização Cageprisioners...

ASSIM QURESHI: É puramente minha opinião pessoal.

ASSANGE: Sua opinião pessoal é que a pena de morte é aceitável?

ASSIM QURESHI: É aceitável, da perspectiva islâmica, como conceito. E no caso da lapidação, também é aceitável, desde que estejam presentes e sejam considerados todos os elementos do inquérito e da prova.

MOAZZAM BEGG: Sempre que se fala da lei islâmica Xaria, só se fala de crime e castigo, ou do castigo [hadul?]. Só se fala das disposições normativas. As disposições normativas não são a Xária. A Xária é a lei.

ASSANGE: O que quero saber é se há um processo legal completo. É o que quero saber.

MOAZZAM BEGG: Nenhum de nós tem a necessária capacidade para falar sobre o modo de vida, sobre o tema do estabelecimento do Estado, nem sobre a formulação das regras e leis. O mais importante a considerar aqui é que, até hoje nenhum país aplicou a lei da Xaria como lei do estado, desde a queda do Califato Otomano. Na essência, até hoje, a discussão é absolutamente teórica; e terá de ser desenvolvida.

ASSANGE: A ideia de voltar à época dos otomanos e ao Califato Otomano,  islâmico, onde não haverá estado, e onde a maioria das pessoas deseje viver... Não sei, mas... Vocês concordam que não há muitos estados nessa situação? Talvez Omã, mas não tenho certeza.

MOAZZAM BEGG: Permita-me lembrar um aspecto curioso. Quando o Califato Otomano foi abolido, uma das primeiras vozes que o defendeu foi Mahatma Gandhi. Porque entendia que se tratava de algo importante para a história islâmica. Por isso, dentre outros motivos, acredito que a ideia de estabelecer-se um califato depende, mais,  provavelmente, de escolher-se outro nome, outra palavra. Poderia ser “bloco”, Bloco Unido Muçulmano. A discussão seria mais fácil.

ASSANGE: Não lhe parece que os tunisianos diriam, ‘ok, somos muçulmanos, estamos em Túnis, falamos um pouco de francês, um pouco de árabe, e desejamos a autodeterminação. E a autodeterminação é mais fácil de obter, se não nos tornarmos ‘amigos demais’ do Egito (porque é país maior, são mais numerosos)?

MOAZZAM BEGG:  Não há dúvidas. Claro. É possível que aconteça exatamente isso. Os árabes já tentaram criar várias organizações para a união entre árabes. Por isso a união não deverá ser árabe. Melhor se for união muçulmana – porque assim pode ncluir os turcos, os iranianos, os paquistaneses, os indonésios. É fenômeno enorme, massivo.

ASSANGE: Mas por que vocês tanto querem a unidade?

MOAZZAM BEGG: Bem, bem... Por que a Europa tanto quis a unidade? A luta pela unidade...

ASSANGE: Para mim, a União Europeia não é objetivo europeu. É objetivo dos EUA, que queriam criar os Estados Unidos da Europa, para combater a União Soviética. E, hoje, é um bloco comercial.

MOAZZAM BEGG: É. A razão para a união [dos árabes] seria a economia, claro; a defesa; e voltar a um passado quando podíamos transitar sem obstáculos, porque éramos cidadãos dessa terra. E a terra não estava dividida pelo princípio colonial.

ASSANGE: Eu talvez conseguisse passaporte muçulmano... e a liberdade!

MOAZZAM BEGG: Isso não podemos saber. Mas você, como cidadão, teria a possibilidade de viajar, como se viaja pela União Europeia. 

ASSANGE: Com direito de trabalhar em qualquer país.

MOAZZAM BEGG: Exatamente isso. 

ASSANGE: Veremos o que acontecerá. É muito, muito interessante. OK. Falemos agora da organização de vocês, Cageprisioners. Há muitos trabalhos a fazer no mundo. Por que vocês se dedicam a Cageprisioners [prisioneiros da jaula]?

ASSIM QURESHI: Sou advogado especialista em direito empresarial, mas parece que, aos poucos, passei por mudança profunda. De tanto ver o que acontecia em Guantánamo, as listas intermináveis de processos carregados de erros, as muitas extradições ilegais... Todas essas coisas caracterizam o abuso da lei, com motivo bem específico. E isso me convenceu de que tinha de trabalhar com algo que fosse contra essa política. A organização Cageprisioners é muito importante para os muçulmanos, como uma voz que inspira, uma voz que, esperamos, diga aos muçulmanos que, sim, eles têm pleno direito de levantar-se para se defenderem, para fazer algo correto, positivo, sem a impressão de que estariam fazendo coisas erradas, ou praticando alguma espécie de crime.

MOAZZAM BEGG: No meu caso, é óbvio. Escolhi esse trabalho, por causa da experiência pela qual passei e que me afetou. E eu, mesmo que nada tivesse acontecido, nem por isso seria menos afetado pelo que acontece. No meu caso, é uma coisa que se conhece como “a síndrome do sobrevivente”: sobrevive-se a um trauma e sabe-se que outros, na mesma situação, não sobreviveriam (e não sobreviveram). E sinto a obrigação de lutar por eles. Sinto como um dever, não só moral e religioso, mas um dever também, baseado na minha experiência pessoal e no meu modo de agir. Se sei que há algo necessário, que sei fazer e que posso fazer, tenho obrigação de fazer. E farei. 

======== FIM DA ENTREVISTA ======

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