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domingo, 12 de outubro de 2014

OTAN rasteja na direção da Síria. Irã fixa a linha vermelha

9/10/2014, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Teerã veio a público hoje, para alertar a Turquia contra “qualquer movimento que exacerbe e complique ainda as condições na região e venha a ter consequências irreparáveis”. O porta-voz do Ministério de Relações Exteriores revelou que Teerã fez uma démarche com Ancara, para que aja com grande prudência. É a primeira reação iraniana, desde que o Parlamento turco aprovou, na 5ª-feira (2/10/2014, vídeo acima, em inglês), resolução que autoriza o governo a enviar tropas para a Síria.

A reação iraniana é forte e implica aviso de que, se tropas turcas cruzarem a fronteira turca, haverá “consequências irreparáveis”. Hmm. As coisas estão ficando altamente explosivas. Por que essa reação tão forte, dos iranianos?

Evidentemente, Teerã já decifrou o plano de jogo do primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, que está jogando por três trilhas. Erdogan calcula que a campanha aérea dos EUA contra o Estado Islâmico não bastará para conter a ameaça extremista, e que serão indispensáveis os “coturnos em solo”. Sabe que a Turquia é o único país em posição de mobilizar ali os coturnos em solo necessários para reforçar a estratégia dos EUA contra o Estado Islâmico.

Forças turcas observam ataque do ISIS/ISIL em Kobane (8/10/2014)
Assim sendo, Erdogan impôs uma pré-condição – entrará no jogo, desde que os EUA remodelem sua estratégia anti-EI na Síria, para incluir “mudança de regime”. Mas Washington prevaricou. Então, Erdogan jogou sua segunda carta – reviveu a antiga proposta turca, de criar uma “zona segura” [orig.buffer zone] dentro da Síria. Na sequência, converteu a “zona tampão” em precondição para Ancara intervir para defender a cidade de Kobane, no norte da Síria, junto à fronteira turca, que estava sendo atacada pelo Estado Islâmico.

Mais uma vez, Washington vacilou. Kobane já está sob controle do Estado Islâmico. Mas, de um modo ou de outro, Erdogan marcou um gol: Kobane é cidade curda e a captura pelo EI enfraquece a organização separatista curda PKK que combate contra o exército turco.

Posto em forma simples, Erdogan está permitindo que o Estado Islâmico (que a Turquia apoia secretamente) esmague os curdos no norte da Síria, enquanto, ao mesmo tempo oferece ajuda a Obama para combater o EI, desde que, claro, os EUA acompanhem as ambições territoriais turcas (disfarçadas sob os planos para zona “tampão” e “zona aérea de exclusão”) na Síria – que seriam o primeiro tiro com vistas à “balcanização” daquele país.

Claramente, a agenda de Erdogan está focada na “mudança de regime” na Síria e, em segundo lugar, em enfraquecer e eventualmente dizimar os grupos curdos separatistas, ao mesmo tempo em que mantém, como sempre manteve, atitude ambivalente em relação ao Estado Islâmico.

Por quanto tempo Barack Obama conseguirá resistir contra a chantagem de Erdogan? A resistência dos EUA contra a ideia da “zona segura” está enfraquecendo, como o secretário de Estado John Kerry deixou fortemente sugerido hoje (9/10/2014) em comentário que fez depois de reunir-se com seu contraparte britânico – embora o Pentágono ainda insista que aquela “zona segura” não está sendo considerada na estratégia dos EUA. O ponto é que Obama já está sendo criticado em casa por ter “feito pouco” para impedir a queda de Kobane.

Recep Erdogan e Jens Stoltenberg (9/10/2014)
Interessa muito a Erdogan enviar tropas turcas como alguma espécie de intervenção pela OTAN na Síria. Isso torna a visita do secretário-general da OTAN, Jens Stoltenberg, hoje, a Ancara, altamente significativa. (O enviado especial dos EUA à Síria, general John Allen, também chegou hoje a Ancara.) O presidente francês François Hollande manifestou apoio à ideia de uma “zona segura na Síria. Isso, claro, implica que a Arábia Saudita também já aprovou a ideia.

Não há dúvida de que está havendo uma acumulação de energia na direção de a OTAN intervir na Síria. Pode vir sob aparência modesta, no início, em termos de a OTAN oferecer “proteção” a um estado membro (Turquia).

O poderoso presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Deputados dos EUA Edward Royce disse em declaração na qual critica duramente o governo Obama, que “um exército terrorista está às portas da OTAN. É tempo de a Turquia e outros membros da Aliança passarem a envolver-se mais fortemente no combate contra o ISIL na Síria”.  

Erdogan provavelmente está avaliando que, se tropas turcas invadem a Síria sob a proteção de uma operação da OTAN, o Irã (e a Rússia) hesitarão antes de empreender qualquer contrarreação que as poderia por numa rota de colisão contra a aliança ocidental.

Mas Teerã parece ter já decifrado essas intenções. O porta-voz do ministério de Relações Exteriores anunciou hoje que o Irã está disposto a intervir (militarmente) para libertar Kobane do EI, se o governo sírio do presidente Bashar Al-Assad fizer essa solicitação a Teerã. Em termos reais, Teerã já esvaziou o pretexto para uma intervenção da OTAN na Síria.

Erdogan pode ter dado passo maior que a perna. Dentro da Turquia também está crescendo a oposição contra enviar soldados turcos à Síria, inclusive dentro do campo islamista.

Refugiados curdos chegam na Turquia (7/10/2014)
Na verdade, se os curdos conseguirem livrar Kobane sem ajuda do Irã, Erdogan ficará completamente exposto. As repercussões podem ser muito sérias para a Turquia, porque os curdos não aceitarão o que estará claramente visível como uma traição cometida por Erdogan. Já irrompeu violência antigoverno  em grande escala nas regiões curdas, no leste da Turquia.
____________

[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

sábado, 11 de outubro de 2014

Guerra contra a Síria respinga para países vizinhos − Líbano enfrenta grave perigo

10/10/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bashar al-Assad, Presidente da Síria
Há 18 meses, o presidente Assad da Síria avisou que a guerra contra a Síria inflamaria também países vizinhos:

Estamos cercados por países que ajudam terroristas e permitem que entrem na Síria – disse ele ao Ulusal Kanal, da televisão síria. Todos sabem que, se os tumultos na Síria chegarem a ponto de partir o país, ou se forças terroristas vierem a controlar a Síria (...) nesse caso tudo imediatamente respingará sobre países vizinhos e haverá um efeito dominó que atingirá países por todo o Oriente Médio.

Desde então, o Estado Islâmico (também chamado ISIS e ISIL) já tomou não só o leste da Síria, mas também a província de Anbar no Iraque, onde se prepara para um ataque ao Aeroporto Internacional de Bagdá e ao governo do Iraque na “Zona Verde” de Bagdá. Vídeo a seguir:


Em cooperação com a Turquia, o Estado Islâmico sitiou o enclave curdo independente de Kobane no nordeste da Síria. A cidade provavelmente cairá, como o governo turco deseja. O bloqueio turco, que impede que cheguem reforços e suprimentos à resistência, inflama a população de 15 milhões de curdos que vivem na Turquia. A queda de Kobane pode levar ao fim do processo de paz entre turcos e curdos e a uma renovada guerra civil no sudeste da Turquia. Vivem na Turquia muitos refugiados sírios, e o país é um centro logístico do Estado Islâmico. O pessoal da segurança turca já está sob influência do Estado Islâmico:

Há sinais de um revide anticurdos e pró-islamistas, com a polícia turca gritando slogans do ISIS/ISIL quando ataca manifestantes curdos.

As forças de segurança turcas também reviveram o Hezbollah Curdo, que absolutamente nada tem a ver com o Hezbollah xiita no Líbano. A versão turco/curda foi secretamente criada pelos serviços de segurança turcos e é uma coleção de curdos sunitas radicais que querem implementar um Estado Islâmico e que foram usados como esquadrões da morte contra grupos seculares curdos pró independência. Nos últimos dias, esses grupos Hizbullah revividos, com apoio tácito das forças de segurança, atacaram manifestações pró-curdos organizadas pelo PKK curdo, mais secularista e dominante, e organizações a ele associadas. Ao longo da semana passada, cerca de 30 pessoas foram mortas em várias manifestações contra o apoio da Turquia ao Estado Islâmico. O número de mortos nos primeiros tumultos longamente planejados contra Assad em 2011 é semelhante a esse.

Terroristas da Jabhat al-Nusra, afiliada da al-Qaeda, treinada e armada pelos EUA na Jordânia
A Jordânia, sul da Síria, é centro importante de atividades anti-Assad.

A CIA está dando andamento a grandes programas de treinamento na Jordânia, onde refugiados do sul da Síria são treinados para lutar contra o governo sírio. Tão logo esses grupos de “rebeldes moderados” são mandados através da fronteira para lutar contra o exército sírio, muitos deles inevitavelmente desertam para o Estado Islâmico ou para a Frente al-Nusra, afiliada da al-Qaeda. Levam com eles as armas que recebem da CIA e dos estados do Golfo que os apoiam. O sistema chinês FN-6 portátil de defesa aérea fornecido pelo Qatar aos tais “rebeldes moderados”, foi usado recentemente pelo Estado Islâmico, para derrubar pelo menos três helicópteros do exército iraquiano. Por mais que a Jordânia tenha isolado os refugiados sírios em campos no deserto, partes da população jordaniana são também simpáticas ao Estado Islâmico. A Jordânia agora fechou as fronteiras para todos os refugiados, para isolar-se ainda mais contra a infiltração pelo Estado Islâmico. É possível que demore um pouco mais, para que a grande onda chegue às suas principais cidades.  

Da Jordânia, “rebeldes moderados” e islamistas da Frente al-Nusra avançaram na direção noroeste, ao longo da zona de demarcação das colinas de Golan com Israel, contra forças do governo sírio e rumo ao sul do Líbano. Esses grupos são protegidos de contra-ataques sírios pela artilharia de Israel e recebem parte do apoio com que contam, inclusive serviços médicos, diretamente do lado israelense. Sua tarefa é infiltrar-se por áreas habitadas pelos drusos próximas da Fazenda Sheba rumo ao sul do Líbano e atacar posições do Hezhollah libanês que hoje protegem o Líbano contra ataque dos israelenses. Israel também está continuamente provocando aquelas posições, por reconhecimento pela força. O Hezbollah reconheceu recentemente que tem respondido àquelas provocações, demonstrando assim que suas capacidades não foram reduzidas, apesar de estarem engajados também em outras áreas. Outros grupos de “rebeldes moderados” que apoiam a Frente al-Nusra andaram para o norte a partir da Jordânia e tomaram a importante montanha síria de Tar Harrah, entre as colinas de Golan e Damasco. Algumas forças do exército sírio estão agora apertadas entre os insurgentes nas colinas de Golan e os que estão em torno de Tal Harrah. Esses dois bandos de “rebeldes moderados” avançaram graças a emprego massivo de mísseis antitanques TOWfornecidos pelos EUA.

Sistema de mísseis portáteis FN 6 ( China)
Essas forças no sudeste da Síria não são o único perigo no Líbano. Na fronteira leste, milhares de combatentes da Frente al Nusra, aqui em cooperação direta com combatentes do Estado Islâmico, ocupam a faixa de 80km de comprimento por 10 de largura, de norte para o sul nas montanhas Qalamoun libanesas. O exército sírio e forças do Hezbollah libanês atacaram aquelas forças durante o verão. Mas o terreno muito difícil, com cavernas e vales muito estreitos é zona ideal para a defensiva, e o progresso tem sido lento.

Os islamistas nas montanhas obtêm apoio e reforços através dos campos de refugiados sírios no leste do Líbano, como na cidade libanesa de Arsal. As Forças Armadas Libanesas, com o apoio do Hezbollah, tentaram afastar os militantes para fora dessas cidades, mas, com o inverno que se aproxima espera-se que mais militantes cheguem lá, e se infiltrem diretamente no próprio Líbano. Sunitas libaneses nativos, especialmente na cidade de Trípoli, no norte, também radicalizaram. Nos últimos dias houve vários ataques contra postos do exército libanês, em Trípoli e noutros pontos. Também têm havido ataques massivos contra pontos de controle, isolados, do Hezbollah, em várias áreas do leste do Líbano. Apesar do inverno que está chegando, no Líbano o calor aumenta de modo preocupante.

Trípoli e alguns pontos importantes no leste do Líbano têm forte e aberta presença de combatentes islâmicos. Também estão presentes noutras áreas, mas menos abertamente. Só nos subúrbios de Beirute, cerca de 30 mil combatentes sunitas refugiados da Síria em idade para combater ocupam campos de barracas, onde combatentes da Frente al-Nusra e do Estado Islâmico recrutam novos soldados, que usam para infiltrar-se ainda mais no Líbano.

O ISIS/ISIL, com a proteção de Israel penetram no Líbano percorrendo a estreita faixa de Quneitra (verde)
As Forças Armadas Libanesas (FAL) estão sob controle do governo de unidade, mas, como a facção sunita daquele governo não quer atacar outros sunitas, as FAL estão sendo impedidas de ter qualquer ação mais forte contra as atividades dos sunitas radicais. Partes das FAL também têm simpatias pelos combatentes do Estado Islâmico, e há notícias de soldados individuais das FAL que apoiam diretamente suas atividades.

Um ataque coordenado de forças radicais islamistas vindas pelo sul, com apoio de Israel, das montanhas no leste e de dentro de cidades libanesas, pode surpreender as FAL e até o Hezbollah. Esse tipo de grande ataque poderia ser coordenado num cenário maior com um ataque contra Bagdá e outros pontos dentro da Síria e possivelmente também na Turquia. Ataques desse tipo superariam não só as forças dos respectivos governos locais, mas também todas as capacidades internacionais de resposta.

O presidente Assad previu que os ataques contra a Síria respingariam sobre países vizinhos. Essa extensão ocorreu no Iraque, está atualmente acontecendo na Turquia, e o Líbano aparece como alvo frágil, que poderia ser tomado da noite para o dia. Só a Jordânia ainda parece de algum modo estável, por hora, mas, com combatentes do Estado Islâmico ali ao norte e leste do país, além de simpatizantes do Estado Islâmico dentro das cidades, é só questão de tempo, antes que a Jordânia também seja incendiada.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Do Camboja ao ISIS/ISIL: “Tudo que voe, contra tudo que se mova”

8/10/2014, [*] John PilgerBlog de John Pilger
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O MUNDO DE HENRY KISSINGER
(por David Levine)
Ao transmitir as ordens do presidente Richard Nixon, para um bombardeio “massivo” contra o Camboja em 1969, Henry Kissinger disse: “Tudo que voe, contra tudo que se mova”. Agora, quando Barack Obama acende o pavio de sua sétima guerra contra o mundo muçulmano desde que levou para casa o Prêmio Nobel da Paz, a histeria orquestrada e as mentiras quase nos fazem sentir saudades da assassina franqueza de Kissinger.

Como testemunha das consequências humanas da selvageria aérea – inclusive a decapitação e o esquartejamento das vítimas, pedaços de corpos pendurados pelas árvores e jogados pelos campos – não me surpreende o descaso com a memória e as lições da história, mais uma vez. Exemplo eloquente foi a ascensão ao poder de Pol Pot e seu Khmer Rouge, que têm muito em comum com o Estado Islâmico no Iraque e na Síria (Levante) [ing. ISIS/ISIL]. Eles também eram medievalistas brutais, e também iniciaram uma pequena seita. Eles também foram produto de um apocalipse made-in-USA, naquele caso, na Ásia.

Segundo o próprio Pol Pot, seu movimento consistira de “menos de 5.000 guerrilheiros mal armados, incertos quanto a suas estratégia, táticas, lealdades e líderes”. Quando os bombardeiros B52 de Nixon e Kissinger começaram a trabalhar, como parte da “Operação Cardápio” [orig. Operation Menu], o maior demônio do ocidente mal pôde acreditar em tanta sorte.

Os EUA lançaram em bombas o equivalente a cinco Hiroshimas sobre o Camboja rural, durante 1969-73. Destruíam, arrasavam vila após vila, e voltavam para bombardear novamente as ruínas e os cadáveres. As crateras deixavam à vista monstruosos colares de carne humana, que se viam do céu. O terror foi inimaginável. Um ex-oficial do Khmer Rouge contou que os sobreviventes

(...) como que congelavam e punham-se a caminhar ao leu, mudos, por três ou quatro dias. Terrificadas e semiloucas, as pessoas estavam prontas para acreditar em qualquer coisa que ouvissem (...). Foi o que tornou tão fácil, para o Khmer Rouge, convencer o povo.

Uma Comissão de Investigação do Governo da Finlândia estimou que 600 mil cambojanos morreram na guerra civil que se seguiu àqueles ataques e descreveu o bombardeio norte-americano como “o primeiro estágio numa década de genocídio”. O que Nixon e Kissinger começaram, Pol Pot, o herdeiro beneficiário dos dois, completou. Ao ritmo dos bombardeios, o Khmer Rouge cresceu e tornou-se poderoso exército de 200 mil soldados.

O ISIL tem passado e presente semelhantes a isso. Muitos especialistas entendem que a invasão do Iraque ordenada por Bush e Blair em 2003 levou à morte de cerca de 700 mil pessoas – num país que jamais antes tivera história de jihadismo. Os curdos haviam feito acordos territoriais e políticos; sunitas e xiitas tinham diferenças de classe e sectárias, mas estavam em paz – eram comuns os casamentos mistos. Três anos antes da invasão, atravessei o Iraque dirigindo meu carro, sem medo. Pelo caminho, encontrei gente orgulhosa do próprio país, herdeiros de uma civilização que, para eles, era bem presente ali.

Bush e Blair - Criminosos de Guerra
Bush e Blair destruíram tudo, reduziram a cacos tudo aquilo. O Iraque é hoje ninho de jihadismo. Al-Qaeda – como os “jihadistas” de Pol Pot – colheu a oportunidade gerada pelo massacre que foi a Operação Choque e Pavor e pela guerra civil que a seguiu. A Síria “rebelde” oferecia recompensas ainda maiores, nas linhas-de-rato da CIA e dos Estados do Golfo, pelas quais corriam armas, logística e dinheiro através da Turquia. A chegada de recrutas estrangeiros seria inevitável. Um ex-embaixador britânico, Oliver Miles, escreveu recentemente:

O governo [Cameron] parece estar seguindo o exemplo de Tony Blair, que ignorou os repetidos avisos que recebeu do Foreign Office, do MI5 e do MI6, que já sabiam que nossa política para o Oriente Médio – especialmente as guerras que fizemos no Oriente Médio – havia sido o principal agente de mobilização no recrutamento de muçulmanos, para o terrorismo, na Grã-Bretanha.

O ISIS/ISIL é filho dileto dos que, em Washington e Londres, ao destruírem o Iraque, como estado e como sociedade, conspiraram para cometer um crime épico contra a humanidade. Como Pol Pot e o Khmer Rouge, o  ISIS/ISIL é mais uma mutação de um estado ocidental de terror, mantido por uma elite imperial venal que não para ante nenhuma consequência de seus atos, desde só atinjam culturas e povos que vivam bem, bem longe dela. Essa culpabilidade é tabu: não pode ser mencionada nas “nossas” sociedades.

Já são 23 anos desde que esse holocausto atingiu o Iraque, imediatamente depois da Iª Guerra do Golfo, quando EUA e Grã-Bretanha sequestraram o Conselho de Segurança da ONU e impuseram “sanções” punitivas contra a população iraquiana – o que, ironicamente, reforçou a posição de Saddam Hussein. Foi como um sítio medieval. Praticamente tudo que mantém um estado moderno foi, conforme o jargão, “bloqueado” – desde cloro para produção de água potável, até lápis escolares, peças para aparelhos de máquinas de raio-X, analgésicos comuns e drogas usadas por pacientes de câncer vítimas da poeira gerada nos campos bombardeados, contaminados por urânio baixo-ativo.

Pouco antes do Natal de 1999, o Departamento de Comércio e Indústria em Londres restringiu a exportação de vacinas destinadas a imunizar crianças iraquianas contra difteria e febre amarela. Kim Howells, médico e subsecretário de Estado no governo Blair, explicou por quê:

As vacinas podem ser usadas para produção de armas de destruição em massa.

O governo britânico safou-se desse escândalo universal, porque a imprensa-empresa que distribuía “notícias” do Iraque – praticamente toda ela manipulada pelo Foreign Officebritânico – culpou Saddam Hussein por tudo.

BOMBARDEAR O IRAQUE
UMA TRADIÇÃO DOS EUA
Sob um falso “Programa Petróleo por Comida”, dito “humanitário”, pagavam US$ 100 por iraquiano, por ano. Esse valor devia pagar por toda a infraestrutura e serviços essenciais de que a sociedade precisasse, como energia e água.

Imagine – disse-me o subsecretário-geral da ONU, Hans Von Sponeck – essa ninharia, para pagar por toda a água limpa, que não havia, e o fato de que a maioria dos doentes não podia pagar por qualquer tratamento, e o trauma terrível de passar por esse tipo de necessidade dia após dia, e você poderá fazer ideia daquele pesadelo. E, não tenha dúvidas: foi tudo deliberadamente planejado. No passado, sempre me recusei a usar a palavra genocídio, mas agora é inevitável.

Desgostoso, Von Sponeck demitiu-se do cargo de Coordenador Humanitário da ONU para o Iraque. Antes dele, Denis Halliday, também alto funcionário da ONU, também se demitira.

Fui instruído – disse Halliday – a implementar uma política que corresponde à definição de genocídio: política deliberada que efetivamente matou mais de um milhão de indivíduo, crianças e adultos.

Estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância, UNICEF, descobriu que entre 1991 e 1998, no auge do bloqueio, houve 500 mil mortes “a mais”, no Iraque, na faixa etária até cinco anos. Uma repórter da TV norte-americana falou disso a Madeleine Albright, embaixadora dos EUA à ONU, e perguntou-lhe:

O preço não foi alto demais?

Madeleine Albright
Resposta de Albright:

Entendemos que valeu a pena.

Em 2007, o mais alto funcionário britânico responsável pelas sanções, Carne Ross, conhecido como “Mr. Iraque”, disse a uma comitê parlamentar, que:

[Os governos de EUA e Reino Unido] estão de fato negando a toda a população iraquiana os meios para sobreviver.

Quando entrevistei Carne Ross três anos depois, era um homem consumido pela arrependimento e pela vergonha: “Sinto vergonha” – disse ele. Ross é hoje um dos raros que dizem a verdade sobre como os governos mentiram aos cidadãos e sobre o papel decisivo que cabe à imprensa-empresa na implantação e disseminação das mentiras. “Ou passávamos aos jornalistas os factoides que recebíamos da inteligência, já limpos, ou simplesmente escondíamos todos os fatos”.

Dia 25/9/2014, uma manchete do Guardian dizia: Ante o terror do ISIS/ISIL, temos de agir. Esse “temos de agir” é fantasma que despertou, como um sinal de alerta: tratem de esquecer todos os fatos, lembranças, lições aprendidas, arrependimentos ou vergonha. O autor do artigo é Peter Hain, ex-ministro do Foreign Office responsável pelo Iraque durante o governo Blair. Em 1998, quando Denis Halliday revelou a extensão da tragédia e do sofrimento humano no Iraque, pelos quais o governo Blair era um dos dois principais responsáveis, Hain acusou-o, no programa Newsnight da BBC, de ser “defensor de Saddam”. Em 2003, Hain apoiou a invasão do Iraque no governo Blair, repetindo o que todos já sabiam serem mentiras. Em conferência no Partido Labour, pouco depois, descartou a invasão como “questão marginal”.

Esse é o homem que, hoje, exige “ataques aéreos, drones, equipamentos militares e outros apoios” aos que “enfrentam o genocídio” no Iraque e na Síria. Só depois seria possível “o imperativo de uma solução política”. É o mesmo que Obama tem na cabeça, quando suspende o que ele chama de “restrições” contra bombardeios e ataques por drones norte-americanos. Significa que mísseis e bombas de 300 kg podem destruir casas de camponeses, como fazem sem qualquer restrição no Iêmen, Paquistão, Afeganistão e Somália – e como fizeram no Camboja, Vietnã e Laos. Dia 23 de setembro de 2014, um míssil Tomahawk atingiu uma vila na província Idlib na Síria, matou uma dúzia de civis, entre os quais mulheres e crianças. Nenhum deles tinha bandeira preta.

No dia em que foi publicado o artigo de Hain, Denis Halliday e Hans Von Sponeck estavam casualmente em Londres e vieram visitar-me. Não estavam chocados com a letal hipocrisia de uma autoridade, mas lamentaram a inexplicável ausência de qualquer diplomacia inteligente, capaz de negociar alguma espécie de trégua. Por todo o planeta, do Norte da Irlanda ao Nepal, pessoas que se viam umas às outras como terroristas e hereges conseguiram sentar-se face a face numa mesa de negociações. Por que não agora, no Iraque e na Síria?

Como o ebola, do Oeste da África, uma bactéria chamada “guerra perpétua” já cruzou o Atlântico. Lord Richards, até recentemente comandante dos militares britânicos, quer agora “coturnos em solo”. Há uma verborragia doentia, quase sociopática, de Cameron, Obama e aquela “coalizão dos dispostos/desejantes” – e chama a atenção o estranhamente super agressivo australiano Tony Abbott – que agora prescrevem mais e mais violência, lançada de bem longe, de 30 mil pés de altitude, sobre locais onde o sangue de aventuras anteriores ainda não secou. Nunca sofreram bombardeios e aparentemente gostam tanto que querem agora bombardear também um seu potencialmente valioso aliado, a Síria. Não é novidade, como mostram arquivos vazados da inteligência de EUA e Reino Unido:

Para facilitar a ação de forças de libertação [sic] (...) deve-se fazer esforço especial para eliminar alguns indivíduos chaves [e] provocar agitação interna na Síria. A CIA está preparada, e o MI6 tentará montar pequena sabotagem e golpe de incidentes principais [orig. main [sic]] dentro da Síria, trabalhando mediante contatos com indivíduos (...) um grau necessário de medo (...)confrontos [encenados] de fronteira darão um pretexto para a intervenção(...) CIA e SIS devem usar (...) capacidades nos campos psicológico e de ação, para aumentar a tensão.

Esse parágrafo foi escrito em 1957, mas poderia ter sido escrito ontem. No mundo imperial, as coisas essenciais jamais mudam.

Roland Dumas
Ano passado, o ex-ministro de Relações Exteriores da França Roland Dumas revelou que “dois anos antes da Primavera Árabe”, fora informado em Londres de que estava já planejada uma guerra contra a Síria.

Vou lhe dizer uma coisa – disse ele, em entrevista ao canal LPC da TV francesa: Eu estava na Inglaterra, dois anos antes da violência na Síria e outros negócios. Encontrei-me com altos funcionários britânicos, que confessaram que estavam preparando alguma coisa na Síria (...). A Grã-Bretanha estava organizando uma invasão de rebeldes na Síria. Até perguntaram, embora eu já não fosse Ministro de Relações Exteriores, se gostaria de participar (...) Essa operação é velha. Foi preparada, preconcebida, planejada.

Os únicos que realmente se opõem ao ISIS/ISIL são considerados demônios sem salvação no Ocidente – Síria, Irã, Hezbollah. O obstáculo é a Turquia, “aliado” e membro da OTAN que conspirou com a CIA, o MI6 e os medievalistas do Golfo para reunir apoio para os “rebeldes” sírios, inclusive os que agora se autodenominam ISIS/ISIL. Apoiar a Turquia e sua antiga aspiração de dominação regional, com a derrubada do governo do presidente Assad, levará a grande guerra convencional e ao horrendo desmembramento do estado etnicamente mais diverso de todo o Oriente Médio.

Uma trégua – por difícil de negociar que seja – é a única via para fora desse pântano imperial; sem uma trégua negociada, as degolas continuarão. A evidência de que qualquer negociação com a Síria deva ser declarada “moralmente questionável” (como escreveu The Guardian) sugere que a pressuposição de alguma superioridade moral entre os que apoiaram Blair, criminoso de guerra, continua a ser não apenas absurda, mas perigosa.

Além de uma trégua, devem cessar imediatamente todos os embarques de equipamento de guerra para Israel; e é preciso reconhecer o Estado da Palestina. A questão da Palestina é a mais purulenta questão de toda a região, e causa muitas vezes declarada do crescimento do extremismo islâmico. Osama bin Laden disse isso, precisamente, muito claramente. A Palestina também oferece esperanças. Deem justiça aos palestinos, e começarão a mudar o mundo ao redor deles.

Há mais de 40 anos, o bombardeio do Camboja por Nixon-Kissinger gerou uma torrente de sofrimentos da qual o país até hoje não se recuperou. Vale o mesmo para os crimes de Blair-Bush no Iraque.

Com timing impecável, o último tomo da autobiografia de autoconsagração de Kissinger acaba de ser lançado, com o título satírico de World Order [Ordem Mundial]. Em resenha de desavergonhada propaganda, Kissinger é descrito como

(...) modelador chave de uma ordem mundial que permaneceu estável por um quarto de século.

Contem essa ao povo do Camboja, Vietnã, Laos, Chile, Timor Leste e outras vítimas desse “construtor de Estados”. Só quando “nós” identificarmos esses criminosos de guerra que sobrevivem ainda entre nós, o sangue começará a secar.


[*] John Pilger − nasceu em Bondi na área metropolitana de Sydney, Austrália, 9 de outubro 1939. A carreira de Pilger como repórter começou em 1958; ao longo dos anos tornou-se famoso pelos artigos, livros e documentários que escreveu e/ou produziu. Apesar das tentativas de setores conservadores de desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio de Britain’s Journalist of the Year Award na área dos dos Direitos Humanos. No Reino Unido é mais conhecido pelos seus documentários, particularmente os que foram rodados no Camboja e no Timor−Leste. Trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, em Bangladesh e em Biafra. Atualmente reside em Londres.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Iraque e Síria: Relatório de Situação (SITREP)

5/10/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A "coligação" comandada pelos EUA informou  sobre BOMBARDEIOS  ao ISIS/ISIL que NÃO ACONTECERAM [5/9/2014 (Nrc)]
Aí vai um relatório de situação, com informações de fontes públicas e privadas.

No norte da Síria, perto da fronteira turca, combatentes do Estado Islâmico (ISIS/ISIL) estão cercando combatentes curdos do YPG. Até a tarde de hoje a imprensa na Turquia conseguia ver do outro lado da fronteira, e lá estavam tanques do Estado Islâmico cercando a cidade. Apesar de os alvos serem claramente visíveis e identificáveis, não se ouviram ataques aéreos norte-americanos para deter o ataque do Estado Islâmico, e o exército turco manteve a fronteira fechada.

Um morteiro, provavelmente disparado pelo Estado Islâmico atingiu uma casa no lado turco. O exército então declarou a área zona proibida e começou a evacuar a cidade do seu lado. Há alguns meses, morteiros disparados pelo exército sírio atingiram algumas hortas na Turquia. Os turcos retaliaram com fogo de artilharia. Nem sinal de reação semelhante hoje, depois que o morteiro do EI (Estado Islâmico) atingiu a casa.

A mídia na área recebeu ordens para evacuar e, quando estavam saindo, as vans que transportavam as equipes da CNN e da BBC foram atacadas com gás lacrimogêneo por forças (exército e policiais) turcas. Duas vans tiveram os vidros traseiros quebrados (foto acima) por granadas de gás lacrimogêneo lançadas para dentro da van (vídeo no fim do parágrafo). Os turcos claramente não têm interesse em permitir que a opinião pública saiba o que está acontecendo agora em Kobane. Hoje à noite, a mídia curda noticiou sinais de fogo dentro da cidade.


ISIS/ISIL atacou hoje (5/10/2014) Ramadi (Iraque), capital da província de Anbar tomando a maior parte da cidade. As Forças Armadas Iraquianas supostamente abandonaram a cidade. Mapa a seguir:

Ramadi (marcada em vermelho) 
O Exército Islâmico controla agora o eixo Hit, Ramadi, Fallujah e a Rodovia 1 entre Bagdá e a Jordânia, e a Rodovia 12 entre Bagdá e a Síria. A única cidade importante que resta entre a área que o EI controla a leste de Bagdá e o Aeroporto Internacional de Bagdá [orig. Baghdad International Airport (BIAP)] é Abu Ghraib, onde já foi noticiada presença muito intensa do EI. Se o EI conseguir instalar ali alguma da artilharia que capturou antes em Abu Ghraib, terá como fechar o aeroporto de Bagdá; isso tornará extremamente difícil qualquer evacuação do pessoal norte-americano.

Os EUA usaram hoje helicópteros AH-64 Apache para atacar posições do Estado Islâmico em Ramadi e Hit. Esses helicópteros são vulneráveis a fogo de superfície e não deveriam ser usados, a menos que fosse indispensável para efeito de defesa. Os Apaches estão estacionados no Aeroporto de Bagdá com o único propósito de dar proteção ao aeroporto.

Mercenários do Exército Sírio Livre pagos pelos EUA tomaram uma posição do governo sírio em al-Hurrah, a meio caminho entre a fronteira da Jordânia e o sul de Damasco. Chegaram do oeste onde, com a Frente al-Nusra, há posições próximas da demarcação da zona das colinas do Golan com Israel e são protegidas por artilharia israelense. Vídeos os mostraram usando muitos mísseis anti-tanques Tube-launched Optically-tracked Wire-guided, TOW, fornecidos pelos EUA.

Míssil TOW disparado de um jipe
Um grupo de combatentes da Frente al-Nusra vindos da zona de Golan tentou atacar uma posição do Hezbollah no leste do Líbano. Foram emboscados e perderam cerca de 30 combatentes.

No norte de Aleppo, o exército sírio está claramente fechando o cerco em torno da cidade; insurgentes que ocuparam algumas partes da cidade logo estarão sob fogo cerrado.

Hoje, grande número de combatentes do grupo Ahrar al-Shams na província de Aleppo juraram fidelidade ao Estado Islâmico. Em breve, o Estado Islâmico será a única “oposição” existente contra o governo da Síria.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.