sexta-feira, 13 de julho de 2012

História real: as opções do Irã


6/7/2012, Soraya Sepahpour-Ulrich, AntiWar.com
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Diferente do que supõem “especialistas” e “analistas” de jornal, para os quais os países produtores de petróleo estariam usando o petróleo como arma, a verdade é outra. São os EUA, não os países produtores, que sempre usaram e ainda usam o petróleo como arma.

Soraya Sepahpour-Ulrich
George Santayana escreveu, sabiamente, que “Os que não cuidam de relembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. Cegos a história e suas lições, os EUA e seus aliados ocidentais repetem hoje as ações dos anos 1950s, e impõem um embargo ao petróleo do Irã. A aliança liderada pelos EUA esqueceu o passado.

O Irã não esqueceu. O Irã lembra muito bem.

Quando, sob a liderança do nacionalista Mohammad Mossadegh, o Irã optou por nacionalizar a própria indústria do petróleo, a Marinha Real Britânica bloqueou as exportações de petróleo do Irã, tentando impedir, à força, que a nação estatizasse o petróleo. Em retaliação contra as ambições nacionalistas do Irã, e para punir o Irã por defender interesses nacionais, os britânicos instigaram o mundo a boicotar o petróleo iraniano.

Nos anos 1950s, o Irã não tinha força militar para retaliar contra o embargo do petróleo, e o bloqueio naval visava a destruir a economia, para derrubar o governo (ou, como hoje se diz, para promover “mudança de regime”). Os eventos subsequentes foram noticiados em artigo no New York Times como “lição sobre o pesado custo a pagar”, quando nação do Terceiro Mundo rica em petróleo, “resulta enlouquecida por nacionalismo fanático”. [1]

O Irã inserido no mapa político do Oriente Médio
O Irã aprendeu que soberania e autoconsciência nacional exigem força tático-militar e determinação.

Sem nada aprender daquele momento, nos anos 1950s, os aliados ocidentais outra vez, no século 21, impuseram embargo contra o petróleo iraniano. Em retaliação, o Irã aprovou lei para impedir a passagem por suas águas territoriais, pelo Estreito de Ormuz, de petróleo para países que tenham implantado o embargo contra o petróleo iraniano [2]. É uma boa lei, e oportuna. Diferente do que se viu ao tempo de embargo britânico, parece que, agora, Teerã está no controle da situação: os pesados custos associados ao embargo não pesarão exclusivamente sobre o Irã.

A posição legal do Irã

A Convenção de 1982 das Nações Unidas sobre a Lei do Mar estipula que navios “não suspeitos” [orig. innocent] podem exercer o direito de livre curso e que nações litorâneas não devem impedir a passagem por suas águas territoriais. Embora o Irã seja signatário desse tratado, o tratado jamais foi ratificado; assim sendo, não é vigente. Mas, mesmo que fosse formal e legalmente vigente, e se se considera o estipulado nessa Convenção e o contexto da lei internacional, qualquer estado costeiro tem direito de impedir a passagem de qualquer navio por suas águas territoriais, no caso de a passagem agredir “a paz, a boa ordem ou a segurança”; nesse caso, o navio deixa de ser definido como “não suspeito”.

Mesmo que o Irã decida não impedir, mas apenas retardar a passagem dos navios-tanques petroleiros, exercendo o direito de inspecionar todos os que passem pelo Estreito de Ormuz, as inspeções e os atrasos que daí decorrerão manterão alto ou farão aumentar ainda mais o preço do petróleo. Altos preços do petróleo interessam ao Irã e a outros países produtores de petróleo, mas absolutamente não interessam à já desestabilizada economia europeia, que já está em crise.

A opção militar

Embora os aliados dos EUA estejam fazendo exibição de força, enviando navios de combate para o Golfo Pérsico, já se sabe, desde os primeiros “jogos de guerra” de Washington conhecidos como “Millennium Challenge 2002” (que custou $250 milhões de dólares), que aqueles exércitos não podem derrotar o Irã em Ormuz. Cegos à lição que já deveriam ter aprendido, os EUA insistem em enviar naves de guerra para o Golfo Persa, andando temerariamente na direção de um conflito em grande escala. O perigo inerente de confronto naval dessa ordem está em que, diferente do que se viu na Crise dos Mísseis Cubanos, as forças em confronto no Golfo Pérsico não são comandadas por apenas dois comandantes, que podem comunicar-se e, de comum acordo, impedir que a situação evolua para além do ponto de contenção. Nem os efeitos de um conflito desse tipo ficarão limitados àquela região.

Golfo Pérsico - Estreito de Ormuz - Golfo de Omã
Se se sabe que 17 milhões de barris/dia de petróleo, 35% das exportações mundiais transportadas por mar, passam pelo Estreito de Ormuz, [3] qualquer incidente naquele ponto terá efeito fulminante sobre a economia do planeta. Embora apenas 1,1 milhão de barris/dia de petróleo viajem para os EUA, a quantidade que viaja para a Europa é muito significativa.

As perguntas a responder, então, são as seguintes: por que os EUA esperam que seus “aliados europeus” ajam contra seus próprios interesses nacionais? Por que os EUA esperam que eles aceitem pagar tão alto preço no caso de passarem a também boicotar o petróleo iraniano? E por que os EUA estão atuando de modo a aumentar o risco de o Irã bloquear a passagem de outros navios-tanques petroleiros, destinados também a outros países europeus?

Mais uma vez, só a história tem resposta clara. Diferente do que pensam e dizem os “especialistas” e “analistas” de jornal, para os quais os países produtores de petróleo estariam usando o petróleo como arma, a verdade é outra. São os EUA, não os países produtores, que sempre usaram e ainda usam o petróleo como arma.

Há vários exemplos: a pressão que Washington fez contra a Grã-Bretanha nos anos 1920s, para que partilhasse com empresas norte-americanas as suas concessões de petróleo no Oriente Médio. Depois da 2ª.  Guerra Mundial os EUA violaram os termos do Acordo da Linha Vermelha de 1928 [4] e excluíram britânicos e franceses.

Em 1956, os EUA fizeram saber à Grã-Bretanha e à França que nenhum europeu voltaria a ter petróleo, se não se retirassem imediatamente do Egito. Os EUA nada tinham contra a derrubada do governo de Nasser, mas Eisenhower declarou: “Se tivessem agido com rapidez, teríamos apoiado”.

É possível que os governos na Europa Ocidental estejam subordinados a grupos de interesses especiais, como os EUA estão subordinados a lobbies de apoiadores de Israel. É possível também que contem com que o Irã não perceberá o blefe ocidental; ou que o Irã deixará sem implantar a lei de fiscalização que o Parlamento já aprovou; e talvez contem com que o petróleo continuará a ser fornecido normalmente no ocidente. Aconteça o que acontecer, os EUA e seus aliados estão cometendo suicídio financeiro. Em pouco tempo, já enfrentarão as mais graves consequências, antes de conseguirem abalar a decisão do Irã.



Notas de tradução:
[1]
6/7/2012, New York Times em: THE IRANIAN ACCORD” (abstrct).
[3] 30/12/2011, U.S. Energy Administration em: WORLD OIL TRANSIT CHOKEPOINTS”.
[4] O Acordo da Linha Vermelha foi assinado por parceiros da empresa petroleira turco-iraquiana Turkish Petroleum Company (TPC), dia 31/7/1928. Por esse acordo, formalizou-se a estrutura empresarial da TPC, já com uma cláusula que proibia que os parceiros signatários procurassem petróleo por conta própria, no grande território do antigo Império Otomano. Esse acordo está na origem de constituição de um monopólio de petróleo que teria imensa influência, 30 anos antes da constituição da OPEP. A “Linha Vermelha” ia do território do antigo Império Otomano ao Oriente Médio, incluindo a península árabe e a Turquia. O Kuwait estava excluído dessa zona, porque a Grã-Bretanha tinha planos de criar ali uma “zona reservada” inglesa [Extraído de Tlaxcala]. 

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