terça-feira, 17 de julho de 2012

Embaixador dos EUA no Iêmen: o novo ditador


10/7/2012, Jamal Jubran, Al-Akhbar, Líbano [traduzido da edição em inglês]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário de leitor, na página original:
De: Ben Sabih Data: 11/7/2012, 11h35
Era assim, antes, na Bolívia, Equador e outros países latino-americanos.

Soldados numa encosta com vista para a estrada que liga
 a capital iemenita, Sanaa, com a província produtora de  petróleo
de Marib em 26 de junho de 2012.
 (Foto:  Khaled Abdullah)

Jamal Jubran
Sanaa, Iêmen. Sua Excelência, o embaixador dos EUA, Gerald Feierstein, chega à casa do embaixador italiano, para a recepção oficial, no Dia Nacional da Itália. Entra sem olhar para os lados e dirige-se a um canto isolado no jardim, com uma taça de vinho tinto na mão. Num segundo, é cercado por uma leva de altos funcionários do governo do Iêmen, cada um com um pedido a fazer, em nome de seu respectivo departamento.

A cena é como o microcosmo de o que é hoje o Iêmen, depois que se chegou a uma “solução de consenso” para a crise política. Esse “consenso” decidiu pela remoção do presidente Ali Abdallah Saleh, como exigiu a chamada “Iniciativa do Golfo”; e pôs fim à revolução iniciada pelos jovens iemenitas.

Abdel Ilah Shaeh
O mesmo embaixador apareceu na televisão, em entrevista ao canal estatal e declarou que “nós não permitiremos” a libertação do jornalista Abdel Ilah Shaeh, condenado a cinco anos de prisão por ter noticiado a matança de 35 mulheres e crianças, num ataque de avião-robô (drone) dos EUA, em dezembro de 2009. Feierstein “informou” que Shaeh teria laços com a al-Qaeda e seria grave ameaça à segurança dos EUA.

Inviabilizou assim, pela segunda vez, o perdão presidencial que o respeitado jornalista obtivera de Saleh, antes da eclosão da revolução, ano passado. Da primeira vez, bastou um telefonema do presidente Barack Obama, para que Saleh engavetasse o perdão e mantivesse Shaeh atrás das grades.

Os EUA e seu enviado não pararam por aí. Quando jornalistas iemenitas fizeram uma passeata de protesto até a embaixada dos EUA, para protestar contra o que o embaixador dissera sobre o jornalista preso, viram veículos usados para transporte de prisioneiros entrando no bunker onde está instalada a embaixada norte-americana. Não há quem não saiba que aqueles veículos transportam suspeitos de atividades terroristas, trazidos da prisão central para serem interrogados no prédio da embaixada, em sessões de interrogatório comandadas por especialistas em terrorismo, do FBI.

Gerald Feierstein
A extensão da interferência dos EUA em assuntos internos do Iêmen foi em seguida novamente confirmada pela publicação, no Iêmen e por todo o mundo, de cartas vazadas, escritas pelo embaixador dos EUA ao ministro do Interior do Iêmen, Abdul Qadir Qahtan, nas quais o embaixador dava instruções ao ministro sobre substituições na equipe de segurança, ditas “necessárias para devolver a paz à sociedade” no Iêmen. Já não cabem dúvidas de que Feierstein assumiu, de facto, as funções de governo no Iêmen: só as medidas consideradas “aprovadas” serão implantadas, e só serão “aprovadas” as medidas que favoreçam a política dos EUA para o Iêmen.

Como presidente de facto, o embaixador dos EUA não vacilou: semana passada, visitou a cidade de Zinjibar, na província de Abyan, acompanhado do diretor do USAID, para inspecionar as condições da cidade depois que o exército do Iêmen expulsou dali militantes grupo Ansar al-Sharia. Esse grupo, ligado à al-Qaeda, controlou a região por quase um ano, impondo ali sua versão da Xaria Islâmica. Houve protestos tímidos contra aquela visita nada diplomática, por alguns grupos políticos iemenitas, mas não houve qualquer crítica formalizada.

Já praticamente ninguém protesta. Todas as autoridades começam a receber as intromissões de Feierstein e o status do Iêmen, de estado ocupado e submetido, como fatos da vida.

Qaderi Ahmad Haidar
O analista Qaderi Ahmad Haidar diz que o país já está sob domínio efetivo dos EUA, da “Iniciativa do Golfo” e de mecanismos criados para implementar esse domínio. “O quadro ao qual se assiste hoje é deplorável, lamentável” – disse ele ao jornal Al-Akhbar. “Ninguém jamais esperaria que a revolução iniciada pelos jovens iemenitas acabasse assim”.

O embaixador dos EUA faz inúmeros pronunciamentos, sem qualquer atenção às normas diplomáticas básicas, que regem as relações entre estados. Não perde ocasião de mostrar-se em jornais e televisões, para discutir, “esclarecer” e “explicar” questões internas do Iêmen – como se fosse uma espécie de presidente “não oficial”.

Recentemente, numa dessas aparições públicas, o embaixador disse que:

Estamos agora na segunda fase da Iniciativa do Golfo. Estive ontem com o presidente. Entendemos que todos devem participar do Diálogo Nacional. O presidente Obama assinou uma ordem executiva que permite punir indivíduos ou grupos que obstruam a implementação do acordo [a chamada “Iniciativa do Golfo”]. Estamos trabalhando para reestruturar o exército e as forças de segurança. Estamos satisfeitos com o que já se conseguiu... Estamos na trilha certa.

O embaixador falar em primeira pessoa, comentando assuntos internos do Iêmen, foi detalhe que chamou a atenção de Muhammad Ayesh, editor do jornal independente al-Awwali. Para Ayesh, o embaixador “sente-se”, não só como “governador do Iêmen”, mas como líder levado ao poder por uma revolução que transformou o país e o pôs, literalmente, “no trono!”.

No Iêmen, a classe governante, os políticos e os militares, renderam-se completamente. Entregaram os negócios do país às potências ocidentais. E agora se dedicam exclusivamente às disputas internas, entre eles mesmos” – diz Ayesh. O jornalista observa também que os grupos e facções em que o país está dividido não conseguiram chegar a um acordo sobre depor armas e retirar as forças armadas das principais cidades. “O único acordo que conseguiram fazer foi feito com a interferência do embaixador dos EUA”.

O jornalista e analista político Mansour Hael concorda. Para ele, a explicação de o embaixador dos EUA estar convertido em “chefe político e militar do país” deve ser buscada na fraqueza e na fragmentação dos grupos políticos no Iêmen. A falta de instituições e a evidência de que as instituições que há nada significam e nada conseguem fazer deixaram campo livre, que o embaixador dos EUA ocupou, a ponto de, hoje, ter já a última palavra em inúmeras questões internas do Iêmen.

Os iemenitas chegaram ao ponto de se deixar governar por um estado hoje dividido horizontal e verticalmente. O governo de unidade nacional está rachado, e há um fosso também entre as organizações da sociedade civil e os partidos políticos” – diz Hael, que edita o jornal al-Tajammu. “Com isso, o embaixador dos EUA não encontra dificuldades para manusear todos os fios que movimentam todos os fantoches da vida política no Iêmen”.

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