sexta-feira, 15 de junho de 2012

Ciúme agita política francesa




Publicado em 12/06/2012 por Rui Martins*

Berna (Suiça) - De repente, umas poucas linhas num tweet desencadearam um terremoto na política francesa, a apenas cinco dias do segundo turno das legislativas.

Teria sido ciúmes ? Em todo caso, pouco mais de um mês da vitória de François Hollande, o novo presidente se vê às voltas com seu primeiro abacaxi para descascar, envolvendo sua companheira, sua girl friend como dizem os americanos, e sua ex-esposa e por tabela a campanha legislativa do Partido Socialista na circunscrição de La Rochelle.

Ninguém consegue imaginar como o presidente François Hollande, que descartara de seu mandato qualquer mistura com sua vida pessoal, vai sair da confusão criada por Valerie Trierweiler (à direita na foto) em pleno confronto com sua ex-esposa Ségolène Royal (à esquerda na foto).

Há coisas que só acontecem na França, sem qualquer presságio e em meio à calma absoluta. Domingo, os socialistas obtiveram a maior vitória nas eleições legislativas nunca antes registrada. Nem mesmo Mitterrand conseguiu dar aos socialistas uma tal vitória sem compromissos com outros partidos de esquerda.

Havia só um senão – a ex-esposa do presidente François Hollande, ex-candidata à presidenta vencida por Sarkozy, a bela e voluntariosa Ségolène Royal corre o risco de não ser eleita deputada federal. Talvez para não deixar em má situação seu ex-marido, agora presidente, Ségolène não pediu um posto de ministra, mesmo se batalhou pela vitória do pai de seus quatro filhos.

Ségolène decidiu, meio sem consultar seus amigos, se candidatar a deputada federal pela cidade de La Rochelle, com o objetivo declarado de ser a presidenta da Assembléia Nacional, equivalente à nossa Câmara de Deputados. O Partido Socialista autorizou sua candidatura, porém surgiu um problema – um professor socialista da região, Olivier Falorni, conselheiro da governança local, amigo de longa data do atual presidente Hollande, queria se candidatar e não aceitou que em seu lugar fosse colocada Ségolène Royal. Chamado à atenção pela chefe do Partido Socialista, Martine Aubry, e convidado a retirar sua candidatura, Olivier Falorni se declarou dissidente e disputou as eleições como candidato socialista dissidente.

Domingo, conhecidos os resultados, quem chegou em primeiro lugar foi Ségolène Royal, mas seus votos não eram suficientes para se eleger sendo necessária se submeter a um segundo turno a fim de disputar a maioria absoluta. Em segundo lugar, estava Olivier e em terceiro lugar um candidato do partido de direita do ex-presidente Sarkozy.

Como em política as vinganças são comuns, o candidato da direita se retirou da competição mas pediu aos seus eleitores para votarem no candidato local, ou seja Olivier Falorni. É a primeira vez que um candidato de direita renuncia em favor de um socialista, mesmo que seja dissidente. Porém, o ato nada tem de louvável, o objetivo é o de tirar Ségolène Royal da vida política.

Diante disso, todo Partido Socialista se mobilizou e sua presidente, Martine Aubry, foi pessoalmente, nesta terça-feira, fazer campanha por Ségolène Royal, enquanto o próprio presidente deu seu apoio à ex-esposa contra Olivier Falorni.

O escândalo estourou logo de manhã, quando Martine Aubry chegou a La Rochelle. Valerie Trierweiler, quase nesse mesmo momento, enviou por seu tweet uma mensagem de apoio a Olivier Falorni. Bastaram alguns minutos para toda imprensa francesa noticiar nos seus online como a girl friend do presidente Hollande passou por cima de todos os socialistas, inclusive de seu marido presidente, para apoiar o adversário de sua ex-rival.

Enquanto a direita ri de euforia, diante dessa cena de ciúme qualificada de cena de bulevard e a imprensa fala em reedição de um ato digno de Cecília Sarkozy, conhecida por seu temperamento forte, os socialistas se inquietam com receio de que o tweet da companheira do presidente Hollande possa influir nos resultados do segundo turno, domingo, dia 17.

Outros se lembram também de que Danielle Mitterrand também não era mulher de seguir docilmente as decisões do marido. Valerie já havia dito que não queria ser uma mulher-decoração, tanto que decidiu continuar com sua profissão de jornalista na revista Paris Match.

Em todo caso, uma coisa ficou evidente – o presidente Hollande que instaurou a “normalidade” no governo, tem uma mulher “normal”, ciumenta, que não perdoa seus telefonemas escondidos à ex e que, na Bastilha, depois do beijo do presidente no rosto de Ségolène foi exigente – “eu quero beijo na boca”. Sem se esquecer de que Valerie não votou em Ségolène quando sua rival era candidata a presidente.

As mulheres franceses não têm nada a ver com as mulheres submissas dos islamitas.

Rui Martins* reside em Berna (Suíça); é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, ex-membro eleito no primeiro conselho de emigrantes junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes. Escreve para o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.

Enviado por Direto da Redação

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