segunda-feira, 9 de abril de 2012

Eleições no Timor Leste: “Onde os mais pobres lutam contra os mais poderosos”


3/4/2012, John Pilger, The Statesman, UK
Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

redecastorphoto: “A ilha de Timor-Leste, que conquistou a liberdade liderada pelos militantes Xanana Gusmão e José Ramos-Horta, ainda é vista como colônia por Washington e seus xerifes locais, Austrália e Indonésia, famintos para roubar seus recursos naturais”.

John Pilger
A frase de Milan Kundera, “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento” descrevia o Timor Leste. Um dia antes de viajar para filmar lá clandestinamente, em 1993, fui à loja de mapas Stanfords, no Covent Garden de Londres. “Timor?” repetiu o vendedor, hesitante. Lá ficamos, olhando para as prateleiras marcadas com “Sul-Leste Asiático”. “Desculpe, mas... Onde fica, exatamente?” 

Depois de procurar, ele voltou com um velho mapa aeronáutico, com áreas vazias onde alguém carimbara “Dados Incompletos”. Ninguém jamais lhe pedira mapas do Timor Leste. Era assim o silêncio que envolvia aquela colônia portuguesa, desde que foi invadida pela Indonésia em 1975. Mas nem Pol Pot conseguiu matar tantos cambodianos quanto o ditador Suharto da Indonésia matou, à bala ou de fome, no Timor Leste.

Timor (Clique na imagem para aumentar)

Em meu filme Death of a Nation [1], há uma sequência a bordo de um avião australiano que sobrevoa a ilha do Timor. Há uma festa a bordo, e dois homens de terno brindam com champanhe. “Vivemos momento histórico único”, diz um deles, “realmente historicamente único”. É Gareth Evans, ministro das Relações Exteriores da Austrália. O outro é Ali Alatas, principal porta-voz de Suharto. É 1989, e estão naquele avião, num sobrevoo simbólico, para celebrar a assinatura de um tratado de pirataria, pelo qual a Austrália e várias empresas internacionais de petróleo e gás foram autorizadas a explorar o subsolo marinho do litoral do Timor Leste. Em terra, abaixo deles, veem-se os vales marcados com cruzes negras: ali a força aérea conjunta EUA-Grã-Bretanha matou gente aos magotes.

Zilhões de dólares

Em 1993, a Comissão de Assuntos Estrangeiros do Parlamento australiano registrou, em relatório, que “pelo menos 200 mil pessoas”, um terço da população do Timor Leste, desapareceu durante o governo de Suharto. Em boa parte graças a Evans, a Austrália foi o único país ocidental que reconheceu formalmente a conquista genocida de Suharto. As mortíferas forças especiais indonésias conhecidas como Kopassus eram treinadas na Austrália. O prêmio, disse Evans, foi “zilhões” de dólares.

Diferente de Saddam Hussein, Suharto morreu confortável e pacificamente em 2008, cercado pelos melhores médicos que seus bilhões puderam comprar. Jamais foi ameaçado de processo pela “comunidade internacional”. Margaret Thatcher disse-lhe pessoalmente: “O senhor é dos nossos melhores e mais valiosos amigos”. O primeiro-ministro australiano Paul Keating via nele uma figura paternal. Um grupo de editores de jornais australianos, liderados por Paul Kelly, veterano auxiliar de Rupert Murdoch, voou até Jakarta, para apresentar suas homenagens ao ditador; há uma foto em que se veem eles todos, curvados.

Em 1991, Evans descreveu o massacre de mais de 200 civis, por tropas indonésias, no Cemitério da Santa Cruz em Dili, capital do Timor Leste, como “uma aberração”. Mas quando manifestantes plantaram centenas de cruzes à frente da Embaixada da Indonésia em Canberra, Evans mandou destruí-las.

Dia 17/3/2012, mês passado, o mesmo Evans estava em Melbourne, convidado a falar num seminário sobre a Primavera Árabe. Hoje dedicado ao rico negócio dos “think tanks”, lá pontificou sobre estratégia das grandes potências, sobretudo a, hoje em voga, “responsabilidade de proteger” (que a OTAN usa para atacar ou ameaçar ditadores hoje caídos em desgraça, sob o falso pretexto de que a OTAN lá estaria como libertadora dos respectivos povos). Também presente ao mesmo seminário estava Stephen Zunes, professor de política da University of San Francisco, que lembrou aos presentes o longo apoio que Evans prestou a Suharto, crucial para a longa sobrevivência do ditador.

No final da sessão, Evans, que é homem de pavio curto, saltou sobre Zunes, aos berros: “Quem é você, porra?!” “Onde, porra, você trabalha?” Contaram a Zunes que Evans dissera, e Evans confirmou, que aqueles comentários críticos mereciam “um soco nas fuças”. O episódio não poderia ser mais eloquente. Como que em celebração ao 10º aniversário de uma independência que Evans sempre negou e tentou impedir que acontecesse, o Timor Leste vive hoje as dores do processo de eleger um novo presidente.

Para muitos timorenses e seus filhos maltrapilhos e malnutridos, a democracia é só uma ideia. Depois de anos de ocupação sangrenta apoiada por Grã-Bretanha, EUA e Austrália, os timorenses conheceram campanha incansável movida contra eles pelo governo australiano, interessado sempre em afastar a pequena nação para bem longe de seus direitos sobre a renda do petróleo e do gás extraídos do subsolo de suas águas territoriais. Depois de recusar-se a cumprir a Lei do Mar, a Austrália simplesmente alterou, unilateralmente, as suas fronteiras marítimas.

Mortos pelo xerife

Em 2006, afinal, assinou-se um acordo que atendia, praticamente, a tudo que a Austrália sempre quis. Pouco depois, o primeiro-ministro do Timor Leste Mari Alkatiri, nacionalista [e muçulmano], que se opusera a Canberra e a qualquer interferência estrangeira, foi deposto no que o próprio Alkatiri chamou de “tentativa de golpe” por “forças estrangeiras”. A Austrália tinha soldados de tropas de “manutenção da paz” já presentes no Timor Leste, e treinara a oposição a Alkatiri.

Segundo declarações da Força Australiana de Defesa a um embaixador europeu, comunicadas aos EUA em telegrama diplomático vazado por Wikileaks [2] , o “primeiro objetivo” da Austrália no Timor Leste sempre foi “abrir e garantir acesso, para militares australianos”, de modo que possam atuar “para influenciar a tomada de decisões no Timor Leste”. 

Nas eleições no Timor Leste em 2012 concorrem dois candidatos [3], um dos quais é Taur Matan Ruak, general do exército e homem de Canberra – um dos cabeças do golpe que, em 2006, derrubou Alkatiri.

O Timor Leste é um pequeno país independente, farto em recursos naturais lucrativos e localizado em região altamente estratégica, do ponto de vista dos interesses dos EUA e de seu “xerife” na região, a Austrália (nomeada como “xerife com plenos poderes” por George W Bush). Isso ajuda a entender por que o regime de Suharto sempre recebeu tão empenhada atenção de seus patrocinadores ocidentais. 

Hoje, a obsessão de Washington na Ásia é a China – que oferece aos países em desenvolvimento, investimentos, competências e infraestrutura, em troca de recursos.

Em visita à Austrália, em novembro de 2011, o presidente Barack Obama lançou mais uma rajada de suas ameaças veladas à China, e anunciou o estabelecimento de uma base naval militar dos EUA em Darwin, praticamente “em frente”, por mar, do Timor Leste. Obama sabe que países pequenos, muito empobrecidos, são, muitas vezes, a maior ameaça que se ergue contra potências predatórias, porque, se esses países não forem intimidados e controlados, adeus obediência servil... 



Notas dos tradutores

[1] Death of a Nation: The Timor Conspiracy, 1998, dir. John Pilger, 76’. Pode ser visto a seguir:

Death of a Nation: The Timor Conspiracy from John Pilger on Vimeo.


[2] O telegrama pode ser lido (em inglês) em: Viewing cable 06LISBON1014, PORTUGUESE VIEWS ON EAST TIMOR AND DEPLOYMENT PLANS. Sobre repercussões, ler em 5/5/2011, “Australia Incited Timor Unrest: Wikileaks”.


[3] “O primeiro turno das presidenciais no Timor Leste aconteceu dia 17/3 passado. O segundo turno, está marcado para 16/4/2012. Concorrem no segundo turno: Francisco Guterres Lu Olo, candidato apoiado pela Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin [de Al-Katiri]), e Taur Matan Ruak, ex-chefe das Forças Armadas, apoiado pelo Conselho Nacional de Reconstrução de Timor-Leste (CNRT), do primeiro-ministro Xanana Gusmão” (4/4/2012, de Dili, em português, em: “Timor-Leste/Eleições: Segurança em todo o território nacional é normal – Polícia”.)

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