sábado, 12 de novembro de 2011

Pepe Escobar: “A tragédia do capital do ocidente”


Pepe Escobar

11/11/2011, Pepe Escobar, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu



A revolução consiste em amar um homem que ainda não existe.
(Albert Camus, O Homem Revoltado [1951]. Ver nota 7)
Epígrafe acrescentada pelos tradutores.


A anti-revolução dos 1% contra os protestos começou e será mais que implacável
Roma arde. Os cidadãos, que não se atrapalhem. Que continuem a acreditar que outro mundo pode talvez ser possível. E que continuem a trabalhar juntos a favor desse outro mundo possível.

Estamos numa rota de colisão, na finança global 2.0. A dívida está do lado atlanticista, no norte rico. Os recursos estão no sul global. E o banqueiro (relutante) supremo de último recurso é o Império do Meio, personificado por Sua Alteza Hu (Jintao).

O nome do jogo – Marx revisitado por Occupy o Mundo – é luta de classes. É o capitalismo de cassino, também conhecido como turbo-neoliberalismo financeiro, como é praticado pelo 1% de uma elite da modernidade líquida, versus os têm-alguma-coisa, os nada-podem-ter e os nada-têm, também conhecidos como os 99%.

Não poderia haver demonstração mais gráfica da tese de Slavoj Zizek (de que acabou o casamento entre capitalismo e democracia [1]), que a tomada, pela tragédia grega, do festival de Cannes da dívida [2]. Se há algo que aterroriza de modo terminal a oligarquia da União Europeia, é o conceito de “referendo popular”.

Como se atrevem a consultar a escória, sobre nossa política de Austeridade Forever [para sempre, eterna], a única austeridade capaz de satisfazer os mercados financeiros?!

Basta falar em referendo, e aqueles zumbis jamais-eleitos, como o presidente do Banco Central Europeu, ECB, Mario Draghi (ex-vice-presidente de Goldman Sachs International), o presidente do Conselho Europeu Herman van Rompuy (membro da Comissão Trilateral e do clube Bilderberg [3]); e o presidente da Comissão Europeia, João Manuel Barroso, põem-se imediatamente a sonhar com uma cerrada zona aérea de exclusão, carregada pela OTAN com muitos aviões-robôs comandados à distância, drones, e muitos soldados das Forças Especiais, só para fazer valer a vontade dos zumbis.

Rendição ou morte

O roteiro made in Frankfurt assinado pelo Banco Central Europeu é trazido até vocês pela escola TINA (“there is no alternative”; aprox. “Não há escolha”). A ação, monocromática, tediosa, mistura, como qualquer um adivinha, de privatizações selvagens e devastação social.

A Europa “Democrática” funciona exatamente como nos bons velhos tempos de Brezhnev: a “troika” – FMI, o Banco Central Europeu e a União Europeia – tem poder totalitário, embora pelo método confuso. [4]

“Merkozy” – resultado de polinização cruzada monstro/robótica – só pode, mesmo, emitir um ganido ameaçador: “Coooon... traaatos”. [5]

Não importa que a Itália tenha superávit primário. Não importa que a dívida pública da Itália, combinada com sua dívida privada, corresponda a 250% do PIB da Itália – muito menos do que se vê hoje na França, no Reino Unido, nos EUA e no Japão. 

A Itália está lançada ao vulcão, porque o monstro “Cooon ... traaact” da União Europeia jogou Itália na recessão.

E não há “mudança de regime” que faça, aí, qualquer diferença.

Não surpreende que o principal candidato para suceder o primeiro-ministro Silvio "bunga bunga" Berlusconi seja Mario Monti; ex alto diretor do Conselho Europeu, presidente europeu da Comissão Trilateral e membro do grupo Bilderberg. Mais um luminar quintessencial do 1%. 

A “Europa” – feito sub-seita das oligarquias franco-germânicas – imaginou que a eurozona poderia ser salva pela “coisa” que atende pelo nome orwelliano de Fundo Europeu para a Estabilidade Financeira [ing. European Financial Stability Facility (EFSF)]. Mas agora, até esse embuste – que não passa de um feixe de “garantias” distribuídas por uma empresa de fachada instalada em Luxemburgo – já está à beira de ser engolida pelo Zumbi Supremo, o Deus do Mercado.

Hoje, até um fundo-monstro inventado à moda pervertida dos Goldman Sachs já dá sinais desesperados de que precisa, ele também, de “resgate”. Vocês não podem nem imaginar. Nem Hollywood algum dia pensaria num roteiro desses. 

Enquanto isso, a dama da bolsinha do FMI, a dos tailleurs de irrepreensível alta alfaiataria, Christine Lagarde, anda batendo à porta de Rússia e China, pedindo um pouco de dinheiro-de-bolso. 

Mas Madame Lagarde, quando medita em solilóquio com seus botões Dior, sabe muito bem que não decolará, e que não bastará “salvar” o modelo que o FMI, o Banco Central Europeu e a dupla “Merkozy” insistem em continuar a aplicar.        

Jovem, olhe para o sul
[6] 

Os indignados globais – da Grécia e Espanha aos EUA e por todo o mundo – já entendem, pelo menos, boa parte das maquinações dos 1%.   

Já sabem, por exemplo, do desempenho espetacular das mercadorias listadas no índice de commodities de Goldman Sachs – as mais vendidas em todo o mundo. O pessoal do 1% já conseguiu duplicar e até triplicar o preço do trigo, do arroz, do milho – o que já empurrou centenas de milhões dos 99% do mundo para situação de fome terminal. 

Como não pensar que outro mundo tem de ser possível?

Os 99% do movimento Occupy o Mundo são sonhadores, no sentido dos sonhadores de Maio 68 – “seja realista: exija o impossível”. Sonhadores que sonham por vias deliciosamente frescas, renovadoras, horizontais – nem verticais nem piramidais. 

Querem resgatar a política – hoje, que os políticos já perderam toda a legitimidade – mas em debate de ideias, não de egos ou pura ideologia. A patética farsa que foi a reunião do G-20, semana passada, mostrou mais uma vez que os 99% estão certos.  

Querem uma República em sentido comum, do bom senso republicano. Querem uma assembleia popular por bairro, por vila. São contra usar o dinheiro como valor moral e as finanças de cassino como alguma espécie de Deus irado. Querem resgatar o poder da inteligência coletiva. 

Agora, precisam alcançar massa crítica, por todo o planeta.

Em certo sentido, é como se tivessem feito alguma leitura coletiva de O Homem Revoltado [7] de Albert Camus, publicado há 60 anos. Os 1% daquele tempo não deram qualquer importância ao que, para eles, nunca passaria de um argelino insignificante, filho de empregada doméstica, sem diploma, que apareceu, posando de filósofo.  

Mas muito antes da geração Google e Twitter, Camus mostrou como a revolta inevitavelmente migra, de respostas individuais, para uma resposta coletiva, ideia guardada como jóia preciosa numa bela expressão: “Eu me revolto, logo, nós existimos”.  

Mas, que ninguém se engane. A contrarrevolução do turbo-capital já está a caminho –e será além do pior dos piores. A história mostra que todas as crises do capitalismo sempre foram “resolvidas” por repressão cada vez mais cruel. 

É absolutamente urgente e necessário procurar estratégias efetivas. Vale tudo: de convocar greve geral a convocar debates com vistas a criar novos grupos políticos.

Todos somos responsáveis

A América Latina, que já sobreviveu a tsunamis de mortais “ajustes estruturais” do FMI, e está hoje, lentamente, já forjando a própria integração com independência, que sempre lhe foi negada pelos 1% neocolonialistas e seus satrapas locais, pode ajudar muito.

Em discussão muito iluminadora com líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – o MST brasileiro, dos mais importantes movimentos sociais do planeta – ouvi deles a explicação de como ajustaram-se, como movimento, a partir da luta por uma reforma agrária, para combater batalha muito mais nuançada contra os interesses do atual, poderoso bloco do agrobusiness, bloco que forjou uma complexa e intrincada aliança com o governo Lula.

Vê-se assim que até um movimento social amplo, com gigantesca base popular, tem, sempre, constantemente, de recalibrar a própria luta estratégica.  

Em front paralelo, o mundo espera urgente tradução para o inglês de La Potencia Plebeya [8] – coleção de ensaios e ideias do vice-presidente da Bolívia Álvaro Garcia Linera, um dos intelectuais mais crucialmente importantes em ação hoje na América Latina.

Linera, em resumo, ilumina os modos pelos quais os 1% e seus fantoches “venderam” o conceito de interesse público como se fosse esfera separada da vida da sociedade civil. E como se a sociedade civil só pudesse existir no mundo político, se se deixasse subordinar por mediadores ou pregadores políticos. 

Isso, diz Linera, é um arcaísmo que começa em Hobbes e Montesquieu. E os 99% têm de saber disso – e combater esse conceito. 

Linera cunha o conceito de “cidadania não responsável”, para descrever as massas cegas e desorientadas, que votam enfeitiçadas pelo ideário e as práticas da farsa neoliberal.

Para essa “cidadania não responsável”, o “exercício de direitos políticos não passa de cerimônia apenas ritual na qual renunciam ao próprio desejo político e ao próprio desejo de governar, e o entregam a uma nova casta de proprietários privados da política, que se autoatribuem, eles a eles mesmos, o conhecimento exclusivo de sofisticadas e impenetráveis técnicas de mandar e de governar”.

A luta decisiva, portanto, é contra esses “proprietários privados da política” – e o 1%, que os comandam. É a mesma luta, seja no Cairo seja em Manhattan, Madrid ou Lahore.

G-20? Esqueçam! São, mesmo, o G-7 (bilhões). Se estamos realmente indignados contra um sistema que temos de derrubar, todos somos responsáveis.




Notas dos tradutores

[1] Ver 8/11/2011, Slavoj Zizek fala à rede Al-Jazeera: “Agora, o campo está aberto” (vídeo e entrevista transcrita), em português. 
[2] Ver 5/11/2011, “Medo e delírio no festival de Cannes da dívida”, Pepe Escobar, em português.   
[3] “O Clube de Bilderberg é uma conferência anual não oficial cuja participação é restrita a 130 convidados, muitos dos quais são personalidades influentes no mundo empresarial, acadêmico, mediático ou político, que se reúne desde 1954. Devido ao fato das discussões entre as personalidades públicas oficiais e líderes empresariais (além de outros) não serem registradas, estes encontros anuais são alvo de muitas críticas (por passar por cima do processo democrático de discussão de temas sociais aberta e publicamente). O grupo reúne-se anualmente, em segredo, em hotéis cinco estrelas reservados espalhados pelo mundo, geralmente na Europa, embora algumas vezes tenha ocorrido nos Estados Unidos e Canadá. Existe um escritório em Leiden, nos Países Baixos”.

[4] Orig. shambolic. Palavra difícil de traduzir, porque o nosso “simbólico” não inclui os traços semânticos de “shamble” (cacos), e outras soluções que reforçassem os traços semânticos de “cacos”, perderiam os de “símbolo”. Optamos aí – é escolha arriscada, mas, azira. Nenhuma tradução é perfeitamente isenta de riscos – pela expressão “método confuso”, um oxímoro, que, contudo tem rica história semântica no português do Brasil, desde 1920 embora, claro, só para os que conheçam História do Brasil pelo método confuso, de Mendes Fradique, editado no Brasil em 1920 e reeditado pela Companhia das Letras em 2010. Livro, paródico.

[5]  Orig. 'Coon... traaaact”. Pareceu-nos totalmente intraduzível. “Coon” significa “rato” (gen. Como em racoon), usado, na gíria, no sentido de “ratazana”, aplicado, pejorativamente, para “negros”. E “tract”, em grafia onomatopaica “traaaaact”, pode ser “trato”, como em “trato digestivo” e em “trato”, “acerto, combinação, pacto (além de outras acepções). A grafia da palavra, no original, faz lembrar também o sotaque dos Merkozy, quando falam inglês. Qualquer caminho que se escolhesse, por aí, para traduzir, perderia significados relevantes do original e, principalmente, faria desaparecer o “contratos”, muito visível em inglês. Optamos pela solução que se lê acima, com essa nota.

[6]  Dia 7/11/2001, o Wall Street Journal publicou matéria intitulada “Looking for Euro-surance? Look East, Young Man”, assinada por Christopher Wood, conselheiro para compras de ações e estrategista financeiro da empresa de consultoria financeira CLSA Asia-Pacific Markets, com sede em Hong Kong. Na matéria, o conselheiro estrategista sugere que os investidores que busquem segurança para o euro “olhem para o leste” e comprem ações chinesas e indianas.  
[7] Fr. L'homme revolté [1951]. O Homem revoltado, Rio de Janeiro: Record, 1996. Trad. Valerie Rumjanek 
[8] GARCÍA LINERA, Álvaro. La potencia plebeya. Acción colectiva e identidades indígenas, obreras y populares en Bolivia. CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, Buenos Aires; PROMETEO libros, Buenos Aires. octubre. 2008. Lê-se, na íntegra, em espanhol.  A potência plebéia, São Paulo: Editorial Boitempo, 2010. Trad. Mouzar Benedito e Igor Ojeda. 

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