domingo, 21 de agosto de 2011

Karzai capitula sob a pressão dos EUA



21/8/2011, MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


A revelação, pelo Daily Telegraph, de que estão avançadas as negociações sobre o acordo estratégico entre EUA e Afeganistão, segue a linha do previsto. O presidente afegão Hamid Karzai foi encurralado pelos eventos recentes e sangra hoje por mil feridas que recebe de todos os lados. Já não lhe sobra qualquer energia e está jogando a toalha, como o comprova sua tentativa para compatibilizar os resultados de eleição parlamentar contestada. Sua salvação, no plano pessoal, depende de reconquistar a boa vontade dos EUA, e Karzai está sucumbindo ante a pressão dos EUA para que assine na linha pontilhada e aceite a presença de tropas norte-americanas no Afeganistão, para longa permanência. 

O Daily Telegraph diz que o acordo define 2024 como marco final do novo acordo, mas não é assim simples. De fato, Karzai aceitou a ocupação estrangeira do próprio país, pode-se dizer, permanentemente. Karzai está capitulando, depois de muito bater tambores de guerra, nos anos recentes, contra a presença estrangeira. Ficou sem opções e cada dia mais parece herói ferido de tragédia grega.

Provou que é incompetente, como governante; e seu governo padece hoje os castigos da corrupção e da falta de credibilidade. Os recentes ataques dos Talibã em Kandahar nocautearam sua base política. A confrontação com a oposição afegã gerou uma crise institucional. Agora que a retirada dos EUA começou, Karzai vê-se frente a frente com a dura realidade de que as forças afegãs não passam de piada macabra e não podem assumir a responsabilidade pela segurança do país nem por um mês. Os Talibã continuam a ignorá-lo e seu Alto Conselho para a Paz – sinal de que o “processo” de Karzai para a reconciliação deu em nada.

Se Karzai aceitar, pelo acordo, a ocupação norte-americana do Afeganistão, estará entrando e arrastado com ele o Afeganistão para zona de perigo. Os Talibã não reconhecerão seu acordo com os EUA. Sua posição, inclusive sua segurança pessoal, serão cada vez menos defensáveis, à medida que o tempo passar. A opinião pública afegã sem dúvida milita contra a presença militar estrangeira, mesmo se Karzai batizar as bases norte-americanas com nomes afegãos. 

De fato, a ideia de que forças norte-americanas possam dividir alguma tenda com soldados afegãos é irrealista, dado que todos sabem que o exército afegão pode ser facilmente infiltrado pelos Talibã.

A expectativa dos norte-americanos, de que os Talibã aprenderão a conviver com a ocupação norte-americana – os Talibã sempre querendo chegar ao poder em Kabul – é delirante e só pode ser entendida como mais desejo que razão.

A paz anda longe do Afeganistão e o Paquistão continuará a ferver, enquanto houver soldados norte-americanos na região. 

Barack Obama trabalha contra a causa da paz e da estabilidade regionais, ao permitir que seu governo – e a presidência – sejam controlados por mãos do Pentágono e da CIA.

O Daily Telegraph noticia que as potências regionais estão prontas a opor-se à presença militar do EUA. Mais do que sabido. O embaixador russo em Kabul já se manifestou em termos fortes e claros. Paquistão, China e Irã, todos sabem, sempre se opuseram. 

Karzai sempre foi fino observador da política regional e deveria ter modelado os próprios passos em harmonia com a opinião regional; em vez disso, pôs os próprios interesses à frente — o seu futuro político.

O acordo com os EUA o põe de volta no ponto em que estava no inverno de 2001, quando, tirado do nada, foi posto à frente do governo interino do Afeganistão e teve de aceitar o locus standii [aprox. o lugar de onde falar, sua posição] que lhe foi atribuído — mero fantoche dos EUA. A história o apresentará como figura fraca, maleável, incapaz de tomar posição, sem pensamento próprio e sem qualquer representatividade. 

A diferença entre Karzai e Nouri al-Maliki [1] do Iraque não poderia ser maior.

Os EUA estão hoje literalmente implorando que al-Maliki autorize a permanência de soldados norte-americanos no Iraque e só por mais um ano.

E já não há como desmentir a “agenda oculta” dos EUA, ao invadir o Afeganistão.

Muito evidentemente, os EUA mergulharão no “grande jogo” na Ásia Central. Basta ler o que diz o Daily Telegraph [2]



Notas dos tradutores
[1] 19/8/2011, US Forces to Stay in Iraq Into 2012, Says Leon Panetta [Tropas dos EUA devem ficar no Iraque até 2012, diz Leon Panetta], The Nation, USA.
[2] 21/8/2011, USA troops may stay in Afghanistan untill 2014 [Tropas dos EUA podem permanecer no Afeganistão até 2014], Telegraph, UK.

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