segunda-feira, 16 de maio de 2011

Fora, Israel! “Sunday, bloody Sunday” [1]

Pepe Escobar

17/5/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Foi domingo sangrento – sem o hino do U2. Na Palestina, na Síria e no Líbano, dezenas de milhares de palestinos marcharam até a fronteira de Israel para marcar o aniversário da Nakba [a Catástrofe] de 1948 – a expulsão de milhares de palestinos, simultânea à criação de Israel. 

Resposta dos israelenses, com “máxima contenção”: mataram 10 manifestantes no Líbano, oito na Síria, dois em Gaza e um na Cisjordânia, além de fazer mais de 200 feridos. O consórcio anglo-franco-norte-americano que guerreia contra a Líbia porque o coronel Muammar Gaddafi, como dizem os jornais, “ataca o próprio povo”, manteve-se estrondosamente mudo no ataque dos israelenses... contra o próprio povo. 

A ONU exigiu “contenção” (menos, portanto, até, do que a “máxima contenção” oficial de Israel). O jornal israelense Ha'aretz, sem se preocupar com a ironia, publicou em manchete: “A Revolução Árabe bate às portas de Israel”. Yeah baby, bate sim, bate mesmo. Por isso vocês estão pirando.

Alvo fixo

Israel – mestre escolado em assassinatos seletivos [ing. targeted assassination] – sempre livra a cara quando mata árabes no atacado, porque não teme resoluções do Conselho de Segurança da ONU: os EUA bloqueiam todas. Ainda que alguma resolução contra Israel fosse por acaso aprovada, lá estaria Barack Obama, assassino-seletivo-em-chefe, para impedir que qualquer sanção caísse sobre Israel. Barack, por exemplo, jamais ordenaria à embaixadora dos EUA na ONU Susan Rice, para que se abstivesse em votação de condenação a Israel. Bastaria uma abstenção dessas, para ajudar a ONU, por exemplo, a forçar Israel a aceitar uma solução “Dois Estados” com a Palestina. 

Mas esqueçam o Conselho de Segurança da ONU – tão lépido ao mandar a Organização do Tratado do Atlântico Norte em ataque furioso, aliada a uma gangue de “rebeldes” líbios, assim tomando partido numa guerra civil. O CS-ONU nunca nem considerará negociar com Israel nos termos em que o CS ameaça o Irã, brandindo sanções econômicas, até que passe a respeitar a legislação internacional. 

Esqueçam também qualquer esperança de ver o governo Obama apoiar qualquer decisão do CS-ONU que dê assento formal à Palestina, como estado-membro da ONU. Mais de 100 nações, às quais se somaram recentemente o Brasil, a Argentina e a Noruega, já reconheceram o Estado da Palestina. Quando e se a Palestina algum dia ganhar direito de assento na ONU, os palestinos terão meios para infernizar a vida de Israel em todas as cortes internacionais do planeta, por roubo sistemático de território palestino. 

Por acaso o Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, perderia alguma coisa com esse desenvolvimento? Não. O poderoso lobby israelense em Washington – liderado pelo Comitê de Assuntos Públicos EUA-Israel [ing.American Israel Public Affairs Committee (AIPAC) – já está fazendo campanha contra Obama para 2012. Seja como for, Obama nada fará – e, além do mais, falará na próxima convenção anual do AIPAC em Washington. Se há consenso de Washington, só tem a ver com a cumplicidade com o regime israelense, seja qual for. 

Israel é responsável pela ocupação de mais de 100 colônias (‘assentamentos’, como dizem os jornais) ilegais na Cisjordânia, além de outros mais de 100 considerados “postos avançados ilegais” até pela lei israelense. Os EUA apoiam tudo isso mediante uma complexa rede de instituições “de caridade” controladas por judeus e cristãos de extrema-direita. Visa, Mastercard e PayPal tornam possíveis as doações de dinheiro que financiam as construções ilegais em território palestino roubado. 

Mas fato é que o regime em Israel enfrenta problemas muito sérios. O primeiro-ministro Benjamin "Bibi" Netanyahu – por mais bravatas que faça – está morto de medo. Para manter-se no poder, precisa desesperadamente dos russos seculares do partido Yisrael Beitenu (“Israel Nosso Lar”) e dos judeus fundamentalistas ultra-ortodoxos do partido Shas. Ex-leão-de-chácara na Moldávia, convertido em ministro dos Negócios Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, líder do Yisrael Beitenu, mastiga Bibi no café da manhã e não perde ocasião de humilhá-lo (e Bibi, para reconquistar algum autorrespeito, humilha Obama). Para entender o que é preciso entender sobre a situação, basta saber que Lieberman é, hoje, o cão alfa da política israelense. 

Além disso tudo, o demógrafo da Hebrew University, Sergio Della Pergola disse recentemente ao Jerusalem Post que os judeus já são menos que 50% da população em Israel, somando-se a Cisjordânia e Gaza. 

Em comparação esclarecedora com o ultrarrepressivo Bahrain, onde uma minoria sunita governa a maioria xiita, em Israel uma minoria de israelenses governa 1,4 milhão de cidadãos israelenses e palestinos de terceira-classe; mais 2,5 milhões de palestinos na Cisjordânia ocupada; e mais 1,5 milhão de palestinos que vivem sob sítio, no Gulag que se conhece como Gaza. 

Até a ONG Human Rights Watch (HRW) foi obrigada a reconhecer que “os palestinos enfrentam discriminação sistemática, exclusivamente por raça, etnia, origem nacional, que os priva de eletricidade, água, escolas, acesso a estradas; enquanto os colonos ocupantes judeus que vivem na mesma área, recebem todos esses benefícios garantidos pelo estado de Israel”. 

A única escapatória é “Dois Estados” 

Analisando a trágica paisagem em que vivem, os palestinos concluíram que só há três possibilidades sobre a mesa: o apartheid continua para sempre; na baixa probabilidade de uma solução “Um Estado”, o apartheid continuará ainda por muito tempo, até que muitos israelenses, atingidos pelos efeitos de um boicote global, decidam emigrar de lá ou decidam dar plena cidadania aos palestinos; e a Palestina pode obrigar a comunidade internacional a reconhecê-la, constituindo-se como estado independente. 

Os palestinos afinal decidiram unir-se para agir. Ao tentar unificar Fatah e Hamas, os palestinos viram-se frente à frente com o fato de que nada terão jamais a ganhar se negociarem com um governo israelense de extrema-direita, rachado e super fragilizado em termos políticos, controlado, de fato, por gangues de colonos invasores e assaltantes (chamados “moradores dos assentamentos”). 

Eis, afinal, a nova estratégia dos palestinos: uma Palestina relativamente unificada buscará o reconhecimento da comunidade internacional, na próxima Assembleia Geral da ONU que acontecerá em setembro. Um estado palestino com bases na Cisjordânia e em Gaza, com território demarcado pelas fronteiras de 1967. Não há qualquer dúvida de que conseguirão ser reconhecidos. 

O passo seguinte será obter uma Resolução do Conselho de Segurança que obrigue Israel a negociar seriamente – mas, isso, se os EUA não paralisarem tudo. Se ainda assim Telavive recusar qualquer negociação, haverá meios para iniciar campanha universal de boicote contra Israel, com sanções econômicas e diplomáticas, em processo semelhante ao que derrubou o estado de apartheid na África do Sul. 

Fato é que Israel, em menos de três anos, perdeu duas guerras. O que não destruiu os inimigos – o Hezbollah e o Hamas – tornou-os mais fortes. E então um novo eixo Ancara-Teerã-Damasco constituiu-se na vizinhança. Em seguida, um “aliado valioso” Hosni Mubarak, foi chutado do poder no Egito (não por acaso, Israel e Arábia Saudita, contra o desejo do povo egípcio, apoiaram o ditador até o último minuto e depois). 

Israel reage por reflexo em tempos de dificuldades: abre mais um front de guerra. Até há pouco tempo, o projeto era guerra simultânea contra o Líbano e contra Gaza – como se leu em telegramas diplomáticos publicados por WikiLeaks e pelo jornal norueguês Aftenpost. Na prática, seria guerra total contra populações civis, porque, como se sabe “Israel não pode aceitar nenhuma restrição à guerra em áreas urbanas”. Todos os “danos colaterais”, claro, seriam “não intencionais”. É o caso mais espantoso da história: militares israelenses anunciam, com antecipação, ao embaixador dos EUA, os seus planos para cometer crime de guerra. 

Por tudo isso, a pergunta que o mundo se faz é inevitável: “o que há de errado com aquela gente?!” 

Livre-se desses árabes! 

Sempre que se veem em dificuldades geopolíticas, as elites israelenses só fazem reagir com autovitimização. O caso de Mubarak é exemplar: ele convenientemente obedeceu as ordens de Washington e Telavive e cumpriu os acordos de Camp David, repudiado pela maioria dos egípcios. 

Ao longo dos anos, essa atitude israelense gerou paranóia generalizada – como nas repetidas tentativas de descobrir lá uma temida “Quinta Coluna”, interna. A paranóia misturou-se a uma total dessensibilização em relação à tragédia que se desenrola diariamente em Gaza e ao roubo de terras na Cisjordânia; e somou-se à deriva cada vez mais arrogante e violenta, dos colonos judeus radicais. E, sempre, o movimento de associar qualquer crítica ao governo de Israel a uma suposta pregação para “destruir Israel”.  

Mas tudo isso empalidece em comparação ao consenso que cresce, entre os israelenses, que seria direito deles “transferir” – palavra-código para não dizer “expulsar” – os cidadãos árabe-israelenses para uma inimaginável coleção de bantustões, ou estado palestino ou, melhor ainda, expulsá-los diretamente para Jordânia e Egito (depois da Praça Tahrir, esqueçam o gambito egípcio). 

Já no início de 2009, segundo a Associação Israelense de Direitos Civis, 55% dos judeus israelenses diziam que o estado deveria “encorajar a emigração dos árabes”; 78% opunham-se a incluir partidos árabes no governo; e 56% tinham certeza de que “os árabes jamais alcançarão o nível de desenvolvimento cultural dos judeus”. 

Outra tendência paralela também se tornou visível nos dois últimos anos. Judeus que se orgulham de Israel, mas criticam muito as agendas governamentais já estão sendo “excomungados”. Alguns desses falaram ao Asia Times Online. 

O Dr. Oren Ben-Dor, nascido em Haifa e professor de filosofia política na Universidade de Southampton, analisou em detalhes essa patologia israelense de tentar provocar permanente estado de violência contra a própria Israel. Tem de haver algum pesado elemento de autossatisfação aí envolvido, que leva a essa busca autodestrutiva de despertar ódio – de fato, em todo o planeta – a qualquer custo. 

Para Ben-Dor, a resposta estaria na “incapacidade dos israelenses de questionar a fundo as bases discriminatórias da criação do próprio estado”. Para por fim ao ciclo de violência, seria preciso questionar seriamente o apartheid israelense, o famoso “direito de Israel de existir em segurança como estado judeu”. Enquanto isso não acontecer, a “retórica da autodefesa” de Israel continuará a mostrar-se pelo que é: “a crônica de um suicídio anunciado”. 

Não há qualquer sinal de que a “retórica da autodefesa” esteja levando Israel a bom porto – não, com certeza, com 2,4% da população israelense continuando, insistentemente, a boicotar o que se conhece como “processo de paz”, sem nunca parar de construir colônias ilegais em terra roubada. E não são movidos por qualquer sentimento religioso. Fazem o que fazem porque é bom negócio. É muito mais barato viver nas colônias exclusivas para judeus, que nas grandes cidades de Israel. 

O plano máster de Netanyahu consiste, basicamente, de repetir “Não” – tática que aprendeu do mentor Yitzhak Shamir. Nesse quadro, até o governo Obama teve de admitir que Washington ficara sem ação, limitada a tentativas de suborno e súplicas. “Não” sempre implica bons negócios – para Israel, não para os EUA. 

Exemplo recente: em troca de um congelamento minimalista, de 90 dias, nas construções ilegais na Cisjordânia (excluindo Jerusalém Leste), Israel obteve dos EUA proposta de entregar-lhe 20 jatos de combate F-35 Stealth, no valor de 3 bilhões de dólares, além de mais um saco de brindes. A secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton consumiu nada menos que oito horas de intensa argumentação, para convencer Bibi Netanyahu a aceitar o suborno. Bibi não deu garantias. Mas concordou em apresentar a proposta ao seu gabinete de segurança. Depois, disse “Não”. 

O governo Obama também sabe que a recusa de Israel a negociar com os palestinos é o que explica que Israel jamais se canse de falar do Irã como se fosse alguma “ameaça existencial”. No momento em que haja alguma paz real entre Israel e os palestinos, o Irã deixa de ser “ameaça existencial”. 

Não, não, não e não 

No pé em que estão as coisas, cada nova casa construída em qualquer colônia na Cisjordânia só significa “Não”. Não à paz. Não a qualquer negociação. Não a qualquer direito para os palestinos. Ury Avnery, militante pacifista e autor israelense, define esse comportamento como “insanidade moral”. 

O que já está ruim sempre pode piorar. Israel jamais definiu as próprias fronteiras. Quando o país foi criado, os sionistas sonhavam com uma “Grande Israel”, do Nilo ao Eufrates. Mas, dado que o Eufrates não está à venda, por que não reivindicar logo, de vez, toda a Palestina do Mandato? Esse é o objetivo do gambito de Bibi, para quem os palestinos deveriam reconhecer Israel como “estado judeu”. Com isso, verdade seja dita, o governo Obama jamais pactuou. 

Se algum dia alguém reconhecer algum estado judeu, 1,5 milhão de palestinos (que hoje são infra-cidadãos em Israel) serão imediatamente desnacionalizados e passarão a ser expulsos em massa para o bantustão palestino – solução proposta pelos sionistas para o que veem como “problema demográfico”... criado pelo fato de haver palestinos naquele território desde antes de haver Israel. 

Pela narrativa de Israel, o Exército, perdão, as Forças de Defesa de Israel poderiam, se quisessem, ter pulverizado Gaza, sem deixar pedra sobre pedra; não o fizeram, porque respeitam a vida humana. Por isso a destruição de “só” 15% dos prédios que havia em Gaza e o assassinato de “só” 300 crianças palestinas em 2008-9 é versão que pôde ser vendida – e comprada – pelos israelenses como ato “humanitário”. Quanto a Jerusalém Leste... tem de ser “purificada”. E nada disso jamais desperta qualquer indignação ou preocupação no Conselho de Segurança da ONU. 

O mundo sabe que Israel tem conseguido safar-se, apesar de matar e torturar ininterruptamente dezenas de milhares de palestinos ao longo de 63 anos, porque conta com o apoio incondicional de Washington. 

É possível que a próxima Assembleia Geral da ONU, em setembro, mude essa história. Um governo egípcio representativo e independente será também, com certeza, fator determinante de mudanças, porque – para absoluto horror em Telavive –, bem pode acontecer de ser o contrário absoluto de Mubarak. 

O que infelizmente se sabe com certeza é que, enquanto o apartheid que sobrevive no âmago mais âmago de Israel não for questionado lá mesmo, não haverá qualquer sinal que autorize a esperar qualquer tipo de cura, que ponha fim à “insanidade moral” ou ao “estado patológico” em que vivem os israelenses. 


Nota de tradução
[1]Sunday Bloody Sunday, é a primeira faixa e terceiro single do álbum “War”, de 11/3/1983, da banda irlandesa (Bono Vox) U2. A canção foi escrita em memória dos mortos no dia 30/1/1972, quando foi violentamente reprimida uma marcha de protesto pelos direitos civis da Northerm Ireland Civil Rights association, após a publicação de um decreto do Governo Britânico que permitia a prisão de elementos suspeitos de terrorismo sem julgamento (mais em Espreitador). A letra traduzida por ser lida em: Vagalume. Pode ser ouvida no YouTube, com imagens e fotos documentais dos eventos de Derry, Irlanda.

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