quinta-feira, 28 de abril de 2011

Obama no AfPak: só “marreta e ancinho”?

27/4/2011, *M K Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A protestor in Peshawar holds up a placard against U.S. drone strikes, a point of contention in the fragile U.S.-Pakistan relations. File photo
Manifestante em Peshawar, com cartaz contra os ataques dos aviões-robôs drones 
tripulados à distância – mais um complicador, na já muito frágil relação entre os 
EUA e o Paquistão (The Hindu, Nova Delhi, 27/4/2011,)

Em Washington, até as cerejeiras já sabiam há pelo menos 15 dias, que David Petraeus deixará o comando do exército dos EUA no Afeganistão e assumirá a direção da CIA. Agora, a AP noticia que Leon Panetta, diretor da CIA, assumirá a Secretaria de Defesa, onde hoje está Robert Gates no Pentágono, movimento que abrirá espaço para Petraeus. A AP, ontem, noticiava que Ryan Crocker, ex-embaixador dos EUA no Paquistão e no Iraque é principal candidato a substituir Karl Eikenberry na embaixada dos EUA em Kabul. Movimentos interessantes. O que passa pela cabeça de Barack Obama? 

Primeiro, Obama cuida de não tumultuar ainda mais sua relação com o Congresso e nomeia figuras conhecidas e muito prestigiadas entre deputados e senadores. Assim, garante que não haverá interrogatórios, convocações, audiências públicas: os nomes que indicou deslizarão suavemente pelo canais do Congresso, até a aprovação final. Não há dúvidas de que Obama não quer deputados e senadores a ‘investigar’ a guerra do Afeganistão, sobretudo agora, quando a maioria dos norte-americanos pela primeira vez mostram clara insatisfação com o modo como Obama conduz aquela guerra. 

Segundo, o embaixador dos EUA no Afeganistão, Eikenberry, e o presidente Hamid Karzai mal se toleram, e já estava na hora de fazer mudanças em Kabul. Crocker, dizem os boatos, entendeu-se às mil maravilhas com Petraeus quando estiveram juntos no Iraque, e os anos durante os quais serviu no Paquistão (2004-2007) foram os mais felizes da aliança EUA-Paquistão, de toda a guerra. Crocker conhece o Af-Pak como a palma de sua mão e, mais importante, sabe como as coisas funcionam em Islamabad e Rawalpindi, saberes que valem ouro, se tiver de operar fora da embaixada em Kabul. Claro que, sim, Karzai também o conhece. Até aqui, tudo bem. 

O que deixou os observadores orientais intrigados foi a “troca” Petraeus-Panetta. Ainda que se assuma que Obama não se queira expor ao risco de nomear gente desconhecida e “provocar” o Congresso nesse momento crucialmente decisivo da guerra, fato é que perde excelente oportunidade para injetar melhores ideias numa guerra que padece de anemia profunda no campo das ideias. Pôr Petraeus onde antes havia Panetta, e Paneta onde antes havia Gates... muda o quê, nas operações de “marreta e ancinho” (na famosa metáfora de Petraeus [1])?

O Paquistão se sentirá mais uma vez agredido com a evidência de que Obama está confirmando exatamente a linha que seguiu até aqui, de atacar os Talibã e outros grupos insurgentes e, em seguida, tentar envolver os elementos “bons”, “amigáveis” e “cooperativos” em parcerias de longo prazo que assegurem a presença militar dos EUA no Afeganistão por muito e muito tempo, com os norte-americanos sempre envolvidos na segurança da região. 

Evidentemente, os militares paquistaneses não receberiam com entusiasmo nem Petraeus nem Panetta, mas a decisão de Obama confirma que os generais em Rawalpindi terão, sim, de conviver com os dois, no mínimo pelos próximos dois anos. Por ironia, ambos, Petraeus e Panetta estão sendo “promovidos” por terem feito bom trabalho. Mas essas mudanças de gabinete de Obama significam que as relações EUA-Paquistão conhecerão em breve momentos difíceis [2]. 

A jogada de Obama parece temerária. Estará ele em condições de arriscar-se a arrepiar as penas paquistanesas? O fato que conta é que o Paquistão fica sem alternativa, além de desafiar estrategicamente os EUA, dado que interesses básicos, a soberania e a integridade do país estão sendo claramente ameaçados pelos EUA. 

Os jornais indianos, que depositam confiança imorredoura na onipotência do Tio Sam, dirão que os EUA podem prender o Paquistão em chave-de-braço ad infinitum, porque o Paquistão não sobrevive sem a ajuda norte-americana. Mas já começo a ter dúvidas de que as coisas ainda sejam exatamente assim.




Notas de tradução
[1]Queremos fazer mais operações de marreta e ancinho no Paquistão” (Daily Times, 27/12/2010).  NATO-Pak to hold “more hammer and anvil operations” on Pak-Afghan border: Petraeus

*M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira; serviu no Ministério de Relações Exteriores da Índia. Ocupou postos diplomáticos em vários países, incluindo União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.

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