quinta-feira, 14 de abril de 2011

Julian Assange, entrevista ao The Hindu, 12-13/4/2011 – P II (1/2)

Leia primeiro:

Julian Assange, entrevista ao The Hindu, 12-13/4/2011 - P I (1/2)

Julian Assange, entrevista ao The Hindu, 12-13/4/2011 - P I (2/2)


“WikiLeaks é o método que usamos na nossa luta por sociedade mais justa"

13/4/2011, Julian Assange, entrevista a N. Ram, Editor-chefe de The Hindu, Delhi, Índia

“Percebo que este mundo é o meu mundo e sou infeliz por ver tanta injustiça. Penso que o mundo se apequena e isso me deixa triste. Quero ser feliz, por isso quero um mundo mais justo”. Julian Assange - Foto N. Ram

Parte II (1/2)

The Hindu: Na Índia, depois da primeira reação de surpresa, o tom da resposta oficial à nossa publicação dos “India Cables” veio do primeiro-ministro Manmohan Singh, o qual, no Parlamento, questionou a autenticidade dos telegramas e o que a Embaixada e os consulados dos EUA reportavam, como informação, ao Departamento de Estado. Dia 18 de março, em sessão da nossa Lok Sabha, nossa Câmara dos Comuns, Singh disse textualmente que o governo “não pode confirmar a veracidade, os conteúdos nem sequer a existência desses comunicados.” Parece que assim, o governo da Índia assumiu posição diferente, à parte do resto do mundo, na recepção dos telegramas. Foi assim? 

Julian Assange: Sim, a Índia teve reação diferente. 

O senhor encontrou esse tipo de ‘negação total’ dos telegramas em algum outro governo?

Não. Na extensão em que aconteceu aqui, só aconteceu aqui. E essa reação é preocupante. Porque em dezembro Hillary Clinton já trabalhava para informar o governo indiano de que os telegramas existiam. Fez o mesmo com vários governos. Não havia qualquer dúvida sobre a existência e o conteúdo dos telegramas, confirmados pelo governo dos EUA. Não há nenhuma dúvida quanto à credibilidade de qualquer documento dos muitos que publicamos nos últimos quatro anos. Evidentemente não há qualquer dúvida sobre os telegramas diplomáticos. São absolutamente autênticos — foram autenticados, além do mais, pela reação violenta do Departamento de Estado contra nós e contra centenas de jornalistas das instituições mais respeitáveis do mundo.

Por isso, não há qualquer dúvida de que as declarações do primeiro-ministro foram tentativa deliberada de enganar o público indiano. E isso é preocupante. Porque não se trata de declaração gratuita ou de opinião: são palavras do primeiro-ministro em sessão do Parlamento indiano, e todos sabemos que ele sabe que o que está dizendo não é verdade. Pelo que tenho ouvido, o primeiro-ministro não é pessoalmente corrupto – ou, pelo menos, é o que se diz. Mas tornou-se publicamente responsável por evidente tentativa de encobrir possíveis atos de corrupção de outros. Poderia ter dito simplesmente que “não há provas. São opiniões. Há algumas acusações graves, nos documentos, que têm de ser investigadas. Antes de investigar, não há o que dizer. Depois da investigações, volto ao Parlamento e informo o que houver para informar.” 

“O HÁBITO DE NÃO INFORMAR”, O “VÍCIO DE ENCOBRIR”

Tivesse reagido de outro modo, teria feito melhor. Agiu contra seus próprios interesses e contra os interesses de seu partido, o que é estranho. Sugiro que essa reação talvez seja, apenas, um hábito, um vício, uma espécie de resposta automática: nada se investiga e tudo se acoberta, nada se informa, tudo se esconde.

Mas uma importante figura da oposição, L.K. Advani, ex-vice-primeiro-ministro e líder do partido BJP — esteve num programa “Encontro com a Imprensa” em Mumbai, do qual também participei [da bancada de editores de jornais que faziam perguntas] — disse que tudo que se lê nos telegramas é verdade. Elogiou WikiLeaks e o nosso jornal por darmos a devida cobertura aos telegramas. Basicamente, disse que cada telegrama tem de ser analisado em três partes. Lembro que o senhor disse algo semelhante, numa entrevista, mas Mr. Advani levou um pouco adiante o seu argumento. Uma das partes é o elemento factual, o fato que há no telegrama. Disse ele: “No que posso avaliar, aqueles fatos são verdadeiros. O que se lê nos telegramas é informação destinada ao Departamento de Estado, construída pela embaixada. Por que mentiriam?”. Depois, disse que há o elemento de interpretação. E o terceiro aspecto é a opinião, o que a Embaixada aconselha como procedimento ou encaminhamento. 

Sim, sim. 

E vários outros líderes do mesmo partido BJP usaram as informações no que disseram no Congresso. Recentemente, em campanha eleitoral, Sonia Gandhi, presidente do Congresso, usou informação de WikiLeaks. Um deputado da oposição disse que “o nacionalismo indiano é questão de oportunismo”.

Eu vi, li sobre isso. Interessante, sim. 

Ela mesma usou informação dos telegramas. Parece que estão se enredando cada vez mais, eles mesmos. Sua avaliação me parece correta. Primeiro, não há uma linha, de tudo que WikiLeaks publicou que não tenha sido produzido pelas embaixadas dos EUA, reproduzido sem alteração. Segundo, nada do que WikiLeaks publicou criou algum tipo de problema para alguma pessoa inocente.

Nada. Nenhuma pessoa inocente foi fisicamente ferida. E não sei de caso de pessoa inocente que tenha sido ferida de qualquer outro modo, moral, não fisicamente. Alguns políticos tiveram de renunciar, ou embaixadores foram convidados a se retirar de algumas embaixadas, porque perderam condições para continuar trabalhando, depois que se divulgaram as intrigas que construíam nos países hospedeiros. Governos não se reelegeram e ditadores como Mubarak foram derrubados. Mas não temos notícia, nem os EUA ou qualquer outro país noticiaram, que alguém tenha sido pessoalmente prejudicado, injustamente, por efeito do que publicamos.

EDIÇÃO ACURADA E ATENTA 

Evidentemente, é possível que, no futuro, isso mude, na medida em que qualquer organização envolvida em publicação em escala industrial, com interações em todo o mundo, pode sempre acabar por ser envolvida numa ou noutra tragédia. Mas trabalhamos muito atentamente e estamos em posição invejável no que tenha a ver com edição acurada e atenta.

Os India Cables revelaram que há um nexo, algumas vezes dúbio, entre a política internacional dos EUA e os interesses de grandes empresas, por exemplo, Dow Chemical Company, ou Boeing, ou empresas que constroem reatores nucleares. Na Índia, esse nexo também apareceu claramente. O senhor acha que a publicação dos telegramas fará alguma diferença? Ou temos de conviver com esses nexos dúbios entre políticas autoritárias de governo e os interesses do big business em áreas controversas. Evidentemente, há negócios limpos. 

É, acho que essas empresas gigantes são poderosas e podem jogar o próprio peso para um lado ou outro, sobretudo no que tenha a ver com os mecanismos de arrecadar dinheiro para campanhas eleitorais para o Congresso. As estatísticas mostram que, em Washington, há 50 lobbyistas por deputado. É quantidade gigantesca de poder intelectual dirigido sobre cada deputado, para manipulá-lo. Acontece o mesmo em outras partes do mundo, não só nos EUA, na Rússia, na China e na Grã-Bretanha, em todo o mundo, o interesse dos grandes negócios está ativo dentro dos governos.

A publicação dos telegramas não aspira a mudar o mundo, mas, sim, a mostrar como as coisas são feitas. Se puséssemos tudo em forma de análise, de livro, seriam 3.000 volumes! Numa ponta, 1966; na outra, 2010. Reunidos, os telegramas seriam a mais completa enciclopédia de história política contemporânea, no que tenha a ver com os EUA pelo mundo, que jamais se escreveu. São fonte de informação sobre o mundo e a estrutura das relações geopolíticas, incluindo as interações entre as grandes empresas e os estados-nação. A compreensão sobre o mundo que se extrai dos telegramas, me parece, está ainda no início. Os telegramas são fonte de informação histórica (história muito recente). Aos poucos, começarão a ser objeto de análise acadêmica, serão considerados nos programas e plataformas políticas e assim por diante. 

Entendo que o resultado de tudo isso será uma compreensão mais nuançada da prática e do pensamento dos governos, dentro dos governos, na academia, na mídia, todos compreenderão melhor como o mundo realmente funciona. Resultado, afinal, de tudo, haverá melhores meios para construir políticas melhores e mais justas, que não acertarão sempre, mas serão melhores do que o que houve antes.

 [continua]

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