terça-feira, 15 de março de 2011

Tropas sauditas invadem o Bahrain. Para os xiitas, é guerra.

M. K. Bhadrakumar

15/3/2011, Indian Punchline, *M K Bhadrakumar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Posso agora me apresentar como adivinho profissional – mais ou menos. Dia 4 de março, no postado sobre o Bahrain, escrevi: “Como o adivinho disse a Júlio Cesar, tempos de muitos perigos aproximam-se, entre agora e os idos de março.” Bem, os idos de março são hoje. Evento tão grave quanto o assassinato de Júlio Cesar parece bater-nos à porta. Tropas sauditas invadiram o Bahrain. 

Uma cadeia de eventos está começando, com consequências de longo alcance.

Os primeiros relatos dizem que o contingente saudita consiste de mil soldados, com 150 tanques blindados, carros de transporte de tropas e veículos auxiliares. A TV Bahrain mostrou cenas do que chamou de “unidades avançadas das forças conjuntas do Escudo da Península” – indicação de que mais soldados estão a caminho. O governo do Bahrain tem um pacto de defesa de segurança mútua com o Conselho de Cooperação do Golfo, Cooperation Council for the Arab States of the Gulf, CCASG; também conhecido como Gulf Cooperation Council, GCC. Com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos também mandaram 500 soldados. O governo do Bahrain disse que pediu ajuda militar, dados os “infortunados eventos que abalam a segurança do reino e aterrorizam cidadãos e residentes”. O governo saudita disse que “respondeu ao pedido de apoio que lhe fez o Bahrain”.

O movimento acontece depois de violentos confrontos entre manifestantes xiitas e a polícia.

Os manifestantes bloquearam a estrada que leva ao centro da cidade e principal distrito financeiro e grupos de vigia apareceram para guardar os arredores, enquanto aumentam as tensões sectárias entre os xiitas, que são 70% da população, e os sunitas.

O movimento do rei sunita, para trazer tropas sunitas de outros estados do Conselho de Cooperação do Golfo, cria situação perigosa. Os grupos da oposição xiita, em declaração, disseram que “Consideramos a entrada de qualquer soldado ou equipamento militar na área do Reino do Bahrain, terra, mar ou ar, como clara ação de ocupação. Essa real ameaça, com tropas sauditas e de outros países do Golfo, para atacar o povo desarmado do Bahrain, põe a população sob grave perigo e é ameaça de guerra não declarada, movida por soldados armados.”

Milhares de manifestantes continuam acampados na rotatória da Pérola.
É indispensável acompanhar a reação do Irã e dos EUA.

Nos EUA

Em Washington, o Departamento de Estado disse: “Conclamamos os nossos parceiros do GCC à moderação, a respeitar os direitos do povo do Bahrain e a agir de modo a mais apoiar que dificultar o diálogo”. Significativamente, nem uma palavra de crítica contra a ação militar dos sauditas.

O secretário de Defesa dos EUA Robert Gates visitou Manama na 6ª-feira. Pode-se dar por certo que Gates foi informado do movimento do governo do Bahrain de pedir intervenção de soldados do GCC. Pode-se concluir que a prioridade dos EUA é a Va. Frota (ancorada no Bahrain), e que qualquer preocupação com a democracia aparece longe, no fim da lista. Significativamente, o governo do Bahrain intensificou os ataques contra os manifestantes no fim de semana, imediatamente depois de Gates deixar Manama. 

No Irã

A reação do Irã também foi cheia de nuanças. O ministério das Relações Exteriores ridicularizou, retoricamente, a visita de Gates a Manama, mas a reação à intervenção dos sauditas foi bem discreta no plano do encarregado de assuntos do Oriente Médio e Golfo Persa Amir-Abdollahian. Pode ser apenas uma primeira reação. Mas, de fato, só disse que a intervenção saudita pode vir a complicar ainda mais a situação. Nada de avisos ou ameaças nem exigências de imediata retirada dos sauditas.

Teerã não questiona a legalidade da ação, como os EUA não questionaram. Mas Teerã, pelo menos, chama atenção para as consequências políticas. Os iranianos preferiram esperar para ver, dado que nada têm a perder; não se cogita de intervenção iraniana no Bahrain. O Irã não quer confrontar o GCC. São os parâmetros tradicionais da política regional do Irã. As relações entre Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrain sempre foram problemáticas; e há boas relações com o Qatar, Omã e Kuwait. 

O Irã tem tido muito trabalho para manter laços cordiais com os Estados do Conselho do Golfo.

Mas o Irã tem tudo a ganhar, em termos políticos, se a intervenção saudita detonar a ira dos xiitas na Arábia Saudita e no Kuwait, ou se a situação se converter em pântano que ameace tragar os sauditas no Bahrain. Ao mesmo tempo, Teerã não quer sobre si a acusação de ter despertado sentimentos xiitas sectários. Toda a propaganda de Teerã está centrada no “despertar islâmico” do povo árabe. Divisões sectárias, nesse momento, absolutamente não interessam ao Irã, que não quer ver-se arrastado por um dos lados dessas divisões, o que diminuiria seu prestígio regional.

Outra vez, Teerã entende que as tensões sectárias no Bahrain interessam aos governos sunitas no Golfo Persa, para subjugar as populações majoritariamente xiitas. Pode-se antever que os EUA também têm interesse em deter a revolta popular a favor de mudança de regime. Sobretudo, o Irã está firmemente decidido a agir como potência regional “responsável”, o que reforça a diplomacia iraniana em outras frentes no relacionamento com o ocidente.

Feitas todas as contas, um complexo conjunto de equações estão em movimento – um banquete para qualquer observador que estude a política do Oriente Médio. (...)

O cenário mais provável é que as tensões no Bahrain, Arábia Saudita e Iêmen – o “Triângulo Xiita”, pode-se dizer – se retroalimentem umas as outras nas próximas semanas ou meses, processo sempre exacerbado pela “luta de baixa intensidade” – pelo menos por enquanto – em Omã e no Kuwait.

Enquanto isso, um quadro intrigante apareceu no plano geopolítico: os EUA parecem estar testando a profundidade do lago, com vistas a abrir um canal de alta confiança com Teerã.

A Jordânia anunciou que o rei Abdullah teria manifestado interesse em encontrar-se com Mahmoud Ahmedinejad em Amã ou em Teerã, para “discutir vias que reforcem laços bilaterais em bases claras, de tal modo que sirvam aos interesses dos povos, questões islâmicas, de segurança e sobre a estabilidade na região”. Bravo!

Os laços entre Teerã e Amã estão em estado de congelamento profundo. Para Teerã, Abdullah não passa de lacaio dos EUA. Por outro lado, Abdullah é o resolvedor-de-problemas preferido, que Washington sempre usa quando precisa, em missões delicadas. Abdullah é craque nessa função. Tem credenciais inigualáveis: conversa e negocia com Israel e sobrevive, por causa do apoio dos EUA (e dos sauditas); e o rei Abdullah adora o fato de que a Jordânia goze de prestígio muito superior ao que corresponderia ao peso que tenha na política regional. Tudo isso considerado, o que estaria acontecendo? O mais provável é que os EUA estejam avaliando as reais probabilidades de virem a ter “um diálogo” com Ahmedinejad. 

Não há dúvida de que os EUA já perceberam que, no torvelinho que varre o Oriente Médio, o comportamento do Irã tem sido de perfeita contenção, confinado só na retórica. Isso deve ter encorajado os EUA a testar as possibilidades de um novo modus vivendicom o Irã, de tal modo que os dois lados consigam avaliar melhor o quanto podem confiar um no outro, na abordagem do torvelinho regional. 

Falando em termos amplos, os EUA sabem perfeitamente (a) que o Irã é hoje um dos pilares da estabilidade regional; (b) que a influência do Irã na região cresceu muitíssimo; e (c) que, em termos regionais, Israel foi empurrada para absoluto isolamento.

Evidentemente, no interior do governo iraniano com suas muitas divisões e subdivisões, há muitos grupos poderosos que se oporão ao diálogo com Abdullah nesse momento e que acusarão Ahmedinejad por essa “traição”. Olharão com muita suspeita a possibilidade de que a força de Ahmadinejad aumente, no caso de se iniciarem contatos EUA-Irã.

Sem dúvida, para quem observe o Irã, aí está rara oportunidade para sondar a personalidade enigmática de Ahmedinejad, a qualidade de suas relações com o Supremo Líder Ali Khamenei e o poder que tenha para fazer calar seus detratores e levar avante a ideia de um encontro com Abdullah. Até aqui, Ahmadinejad enfrenta só algumas críticas do Parlamento. Como reagirá a Guarda Revolucionária? E o establishment religioso xiita? São questões pertinentes. Em outras ocasiões, os linha-dura conseguiram deter quaisquer simpatias de Ahmadinejad em relação aos EUA. 

Mas se Ahmadinejad encontrar-se com o rei Abdullah da Jordânia, sem dúvida alguma haverá mudança massiva na correlação de forças na Região. 

Embaixador*M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira; serviu no Ministério de Relações Exteriores da Índia. Ocupou postos diplomáticos em vários países, incluindo União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Kuwait e Turquia.

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