segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Genebra: a favor de implementar-se a Declaração de Teerã

3/12/2010, Kaveh L Afrasiabi, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Depois de mais de um ano de hiato diplomático, Irã e as nações que constituem o grupo “Seis do Irã” [ing. Iran Six] movem-se para outra rodada de negociações em Genebra na próxima semana [1].

Não há muitas expectativas dos dois lados, e o ambiente está fortemente  poluído pelo surto recente de ações anti-Irã, desde novas sanções até terrorismo nuclear e sabotagem em Teerã, à demonização da República Islâmica por funcionários dos EUA, que usaram os WikiVazamentos para dar destaque crescente ao ‘isolamento’ do Irã. 


Num movimento de pré-conversações diplomáticas, ambos os secretários de Estado, Hillary Clinton dos EUA e Manouchehr Mottaki do Irã, participam de uma conferência de segurança no Bahrain patrocinada por um think-tanklondrino e usarão a oportunidade para tentar conhecer melhor o que o outro lado pensa com vistas às conversações de Genebra. 

Depois do assassinato de um dos principais cientistas nucleares iranianos, com outro gravemente ferido, em atentado que Teerã atribui a agentes dos EUA e de Israel, o Irã, compreensivelmente endureceu, e não dá qualquer sinal de interesse por manifestar qualquer flexibilidade temerária. A grande questão é: o que se pode esperar, com realismo, de cada lado, nas conversações de Genebra? 

Oficialmente, os EUA mantêm a exigência já de muito tempo, de que o Irã coopere sem restrições com a Agência Internacional de Energia Atômica [ing. International Atomic Energy Agency (IAEA)] e cesse completamente qualquer atividade de enriquecimento de urânio. 

O principal objetivo do Irã, por sua vez, é chamar atenção e despertar interesse para a chamada “Declaração de Teerã”, de maio passada, assinada por Irã, Turquia e Brasil, mediante a qual o Irã aceita embarcar 1.200kg de seu urânio baixo-enriquecido para a Turquia, onde ficará depositado sob guarda da Turquia; e receberá, em troca desse urânio, 120kg de combustível nuclear para seu reator médico em Teerã, que produz radioisótopos para tratamento de doentes de câncer no Irã. 

Os “seis do Irã” que estarão à mesa de negociações com o Irã na Suíça são os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – EUA, Rússia, China, França, Grã-Bretanha e Alemanha. Mas outros podem também comparecer. 

“Pode haver outras partes interessadas nas conversações de Genebra”, disse recentemente o presidente Mahmud Ahmadinejad do Irã, aludindo, antes de quaisquer outras partes, à Turquia e ao Brasil; isso, enquanto políticos e a mídia turca continuam a martelar a questão de por que, por proposta da ministra de Relações Exteriores da União Europeia Catherine Ashton, descartou-se a ideia de essas conversações serem realizadas na Turquia? 

Dependendo de diplomacia de último minuto, é possível que a Turquia consiga aproximar-se e sentar-se à mesa de negociações. A bola está no campo de Washington, que pode decidir reexaminar a Declaração de Teerã – que a secretária de Estado Hillary Clinton descartou tão prontamente como “imperfeita”, apenas poucas horas depois de o documento ser assinado. 

De fato, há vários argumentos sérios a favor da adoção da Declaração de Teerã.

Em primeiro lugar, nenhum argumento pelo qual o Irã deva ‘exportar’ duas ou três vezes maior quantidade de urânio baixo-enriquecido [ing. low-enriched uranium (LEU) faz qualquer sentido do ponto de vista das necessidades do reator de Teerã. Em outras palavras, os 1.200kg  equivalem a um ciclo de 10 anos de combustível . A Declaração de Teerã, nesse sentido, deve ser interpretada como movimento de flexibilidade da posição iraniana (sobre isso, ver “New signs of Iran nuclear flexibility”, Asia Times Online, 24/11/2010), como vários especialistas nucleares já confirmaram. 

Segundo, concentrar-se focadamente nos detalhes da troca de combustível não equivale a esquecer a negociação “de base ampla” que o Ocidente continua a desejar. Ao contrário, discutir os detalhes da troca pode vir a ser um necessário e oportuno catalisador para ampliar os temas a serem discutido, servindo como base para construir confiabilidade dos dois lados e, talvez, para convencer o Irã a mostrar-se mais flexível tanto nas questões de transparência quanto na discussão do objetivo de suas centrífugas. Por exemplo, o Irã pode aceitar adotar a “centrifugação seca” [ing. “dry spinning”] sem enriquecimento por algum tempo – a alternativa conhecida como “opção de reserva”. 

Em terceiro lugar, o Ocidente deveria estar festejando que o Irã tenha concordado com ‘exportar’ quantidade significativa de urânio baixo-enriquecido, apesar da ideia já enunciada de que o volume “exportado” não seja suficientemente grande. Mas seria um primeiro passo que não deveria ser ignorado em nome de manterem-se ativadas expectativas irrealistas que não são nem justificáveis nem exigíveis nem mesmo do ponto de vista dos padrões de cooperação exigidos pela IAEA. 

O “Grupo de Viena” (EUA, Rússia, França e a IAEA) terá de voltar a reunir-se, caso, semana que vem, a reunião de Genebra decida adotar os termos gerais da troca de combustível. O compromisso firmado na Declaração de Teerã sem sombra de dúvida seria uma mini vitória para toas as partes e um grande avanço no sentido de quebrar o gelo e reduzir tensões. Mas, sim, despertaria a ita dos israelenses e dos seus lobbyists em Washington que clamam por outra guerra. 

Em quarto lugar, a proposta de junho de 2008 dos “seis do Irã” continua sobre a mesa, segundo Ashton. Essa proposta é um conjunto de medidas de apoio econômico, de segurança e de cooperação nuclear, oferecido ao Irã, que evidentemente poderia ser refinado em Genebra, por exemplo, se os EUA mostrassem qualquer disposição para participar da ação de modernização do reator de Teerã, que foi construído inicialmente pelos EUA, antes de ser reformado pela Argentina há alguns anos. 

Desnecessário dizer que, para que o governo Obama considere seriamente esses passos concretos, à luz da difícil situação do cenário doméstico nos EUA, é preciso que se veja que, de algum modo, o risco de proliferação nuclear no Irã esteja controlado. Vários especialistas iranianos, como o professor Kayhan Barzegar, em artigo no Bulletin of Atomic Scientists, sugeriu que o Irã pode bem readotar o intrusivo “Protocolo Adicional do Tratado de Não Proliferação Nuclear” [ing. Additional Protocol of the nuclear Non-Proliferation Treaty], com o que se criaria a confortável situação de os EUA e aliados poderem dizer que arrancaram alguma concessão significativa de Teerã. 

Se as conversações de Genebra fracassarem, e se os EUA bloquearem o pedido do Irã à IAEA, de cooperação para o fornecimento de combustível para seu reator médico, então será razoável esperar reação negativa do Irã no que tenha a ver com cooperação com a IAEA, que já tem reclamado da baixa cooperação iraniana, na recepção aos seus inspetores. 

Esse não é resultado que os EUA possam desejar – os EUA que tanto repetem que desejam ajudar o povo iraniano. O povo iraniano certamente se voltaria contra o presidente Barack Obama, se os EUA negassem assistência aos doentes de câncer. Seja como for, se, depois do fracasso das negociações nucleares de Genebra, sobrevier ataque militar ao Irã, os iranianos sem dúvida alguma se unirão contra os EUA e exigirão ataque de resposta. 

Nota
[1]
A reunião começou hoje, 2ª feira, 6/12 e o assunto foi pauta, hoje, do facinoroso “Jornal Nacional” da Rede Globo. Por isso, decidimos traduzir essa matéria, para oferecer melhor informação aos infelizes consumidores do “jornalismo” ginasiano, enviesado e pervertido da Rede Globo (NTs).

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