terça-feira, 5 de outubro de 2010

É GUERRA! REDE RECORD X EIKE BATISTA

Raul Longo


Às vésperas da eleição, em 26 de setembro, domingo retrasado, a partir de um pedido do governo chileno para que o do Brasil contenha as pretensões do empresário Eike Batista sobre terras ocupadas por comunidades indígenas daquele país, na região do Atacama, o programa Domingo Espetacular da Record News traçou um perfil e resumo histórico da fortuna, casamentos, ostentação de luxo, investigações policiais e empreendimentos polêmicos do homem mais rico do país e 8º do mundo; finalizando com exposição de como grande parte de seu capital provêm mais de especulações acionárias do que resultados efetivos de empreendimentos em maioria ainda não produtivos.

A simples lembrança de que a crise financeira que ainda afeta todas as nações do mundo foi provocada exatamente por especuladores de grandes fortunas montadas sobre castelos de cartas, justifica sobejamente a matéria que em momento algum extrapolou a informação jornalística, não criou qualquer ilação ou denúncia sem fundamentos. Aliás, nem houve denúncia. Tão somente a notícia de fatos, em maioria bastante conhecidos.

Aquela edição pode ser revista consultando o portal do programa na internet. E também a edição do domingo último, 03 de outubro, onde o tema é retomado a partir da ameaça do empresário, afirmando que a Record “não sabe com quem se encrencou!” e prometendo usar de todas as mídias sociais contra a segunda maior rede de emissoras do país.

Estranha democracia, esta brasileira, onde políticos de qualquer importância e mesmo o Presidente da nação são livremente achincalhados, inclusive através de documentos forjados e divulgados por veículos de circulação nacional. No entanto, se algum veículo de informação noticia fatos comprovados que incomodem a um empresário, pode ser notoriamente chantageado através de seus concorrentes.

Estranho senso de liberdade de expressão, imparcialidade, transparência, direito e dever de informação.

A editoria do Domingo Espetacular parece ainda não ter se intimidado, pois em face da ameaça assumiu tom mais acusatório nesta última edição, revelando gravações que comprovam a tentativa de aliciamento de índios do litoral sul do estado de São Paulo com intenção de despojá-los de suas terras, por parte da LLX, uma das empresas do conglomerado acionário de Eike Batista. A transação foi considerada ilegal pelo Ministério Público, além de envolver corrupção de uma funcionária descendente de caingangue, por essa razão exonerada pela FUNAI.

A reportagem conta que Eike desistiu daquele empreendimento, mas insiste em outros tão ou mais degradantes em aspectos sociais ou ambientais, já instalados ou a se instalar em outras partes do país, entre os quais se inclui o megaestaleiro da OSX projetado para a Baía Norte da Ilha de Santa Catarina.

No que refere a este estado, o mais surpreendente da edição de 03 de outubro do Domingo Espetacular é que, enfim, se colhe depoimentos dos principais interessados e afetados pelo empreendimento defendido inclusive pelo grupo do governador eleito no mesmo dia em a reportagem foi ao ar. Apesar da eleição do DEM aqui no estado, o Domingo Espetacular soltou a matéria que pela primeira vez divulga o que foi omitido por toda a campanha eleitoral e por todos os meios de mídia: a opinião daqueles que serão drasticamente atingidos pela total e absoluta ruptura de vocação e realidade sócio/econômica e cultural na região metropolitana de Florianópolis.

Impressiona o silêncio geral daqueles que tão ufanamente exaltam o popular “Manezinho da Ilha” por motivos comerciais ou eleitorais, mas nesses momentos e sobre temas de tamanha e substancial importância, esquecem da existência do popular, do morador, do trabalhador, do cidadão comum e cotidiano. Muito se reclama dos votos em Tiririca, mas aqui mais uma vez o povo é utilizado exclusivamente como palhaço.

Dessa vez a editoria do Domingo Espetacular, lá de São Paulo, lembrou-se de mandar alguém para escutá-los e se naquele estado neste dia 3 de outubro se pode votar no Tiririca, em Florianópolis pudemos assistir, em transmissão nacional, a Gioconda e o Zeca, conhecido como Vaca Brava por sua tradicional combatividade em prol dos 300 maricultores cadastrados na EPAGRI, órgão governamental também responsável pela atividade de cerca de 2500 pescadores.

A Gioconda e o Vaca Brava, como seus demais companheiros, empregam uma média de 5 ajudantes cada e, junto com a pesca, compõem o primeiro setor profissional a ser eliminado da região através da dragagem do canal. Tudo para atender a voluntariosidade ou os interesses escusos do homem mais rico do país, que teima em instalar seu megaestaleiro na entrada do canal, no município de Biguaçu, apesar de fortemente recomendado pelas mais respeitadas autoridades científicas nacionais à não fazê-lo.

Enquanto Eike Batista não explicar as razões de preterir outras regiões do litoral catarinense onde a construção do estaleiro não provocaria tamanho impacto sócio/ambiental, além de diminuir os custos do empreendimento pela desnecessidade de dragagem e periódicas redragagens para desassoreamento dos 9 metros de aprofundamento em uma extensão de aproximados 13 kms por 200 metros de largura de leito arenoso e movediço, provocando a mudança de perfil de algumas das mais belas praias do município; todo aquele que apoie o empreendimento se assume contrário a preservação das condições de subsistência e qualidade de vida da população da Grande Florianópolis, por escusos interesses exclusivos.

Antes do Domingo Espetacular, a imprensa vinha dando ampla repercussão à versão do próprio empresário e dos diretores de sua OSX, culpando os golfinhos da Baía Norte por impedirem o empreendimento. Para ser mais exato, culpam os técnicos e cientistas classificados de xiitas do preservacionismo que, no afã de defender a natureza, seriam incapazes de avaliar a importância para o que prometem como salto econômico/social para a região.

Pela primeira vez alguém toma a iniciativa de documentar e colher a opinião dos que seriam os principais interessados neste salto. Ou serão apenas coringas da queda de cartas jogadas por Eike Batista sobre a Grande Florianópolis?

Talvez fosse esperar demais dos jornalistas dirigidos pelas editorias das sucursais que transmitem das antenas do Morro da Cruz, ou mesmo do governador eleito e dos políticos locais, alguma consideração sobre as consequências das profundas e marcantes mudanças a serem provocadas na região, com consequente desemprego nos setores gastronômico e hoteleiro. Afinal, somos apenas os palhaços estimados em 200 mil desempregados em curto prazo, mas ainda assim é de estranhar o esforço da mídia catarinense e daqueles que politicamente deveriam representar os interesses de seus eleitores, para concentrar todas as críticas aos técnicos do ICMBio, órgão federal cujo parecer foi contrário a instalação do megaestaleiro.

Por que a mídia local e mesmo a nacional tanto insiste em sumariamente nos rotular de eco-xiitas? Qual palhaçada conferem à mobilização daqueles que defendem a qualidade de vida de seus filhos e netos no lugar em que nasceram ou escolheram para viver?

É muito estranho que nenhuma emissora, nenhum jornal local, nenhum candidato, tenha tido a curiosidade de conversar com estes moradores organizados em associações de bairro e centros comunitários que semanalmente têm se reunido para discutir o assunto ou que manifestam suas contrariedades às intenções de Eike Batista em alguma praia, em algum ponto das cidades a serem prejudicadas.

Estranha democracia essa onde toda uma população se torna refém dos caprichos e interesses financeiros de um único homem!

Será que depois do Domingo Espetacular os diretores e editores de jornalismo da subsidiária local da Record, enfim começarão a se interessar pela opinião dos integrantes das associações de maricultura ou pesca que respondem pelos interesses dessas atividades básicas, geradoras e promotoras da cultura e do turismo local? Ou será que moradores, pescadores e maricultores não são público para as emissoras de TV de Santa Catarina?

Será que assim como precisou a editoria do Domingo Espetacular da Record de São Paulo descobrir a existência da Gioconda e do Vaca Brava, pessoas tão conhecidas em toda a Baía Norte, se vier alguém do Fantástico ou do CQC, os jornalistas da RBS ou da TVBV conseguirão perceber que os moradores de Florianópolis também formam um público?

Altemir Gregolin, Ministro da Pesca e natural do centro-oeste de Santa Catarina, comprovou a invisibilidade da população da capital de seu estado, ao afirmar que na Baía Norte, provedora de cerca de 70% do pescado comercializado no Mercado Público de Florianópolis, não ocorre atividade pesqueira. Será necessário que Dilma Rousseff venha até a Grande Florianópolis para mostrar ao Ministro da Pesca que os ranchos com barcos e canoas à beira de praias são de pesca? Que não são locações de veraneio ou acampamento hippie?

Para que alguém ligado ao governador eleito venha demonstrar a existência do trabalhador a ser desempregado em massa pelo projeto de Eike Batista, fica mais difícil. Como é sabido, o principal líder de seu partido, o DEM, apesar de interventor da ditadura nesse estado por mais de uma vez, hoje vive em São Paulo e nunca demonstrou qualquer apreço ou preocupação com o povo catarinense ou de qualquer lugar. Daí seu filho, reeleito à deputado federal, ser um dos mais ferozes defensores das escusas intenções do empreendimento.   

Dizem que as guerras revelam realidades humanas muitas vezes escondidas. Esta guerra declarada por Eike Batista à Rede Record já revelou a existência do difícil e duro trabalho cotidiano da Gioconda e do Vaca Brava. À continuar por aí talvez tenhamos, através do Domingo Espetacular, novas revelações sobre a população local ou sobre os escusos interesses que ameaçam seu futuro

Revelações de realidades escondidas pela incivilidade pública de políticos e jornalistas locais que não deveriam merecer nem nosso voto nem nossa audiência. 

Mas não podemos perder o próximo Domingo Espetacular.