quarta-feira, 2 de junho de 2010

Quanto pretexto do embaixador Giora Becher para defender o indefensável


 Por Max Altman

Começo por citar textualmente um excerto do editorial do jornal Ha’Aretz de 31 de maio:

“Um bando de imprudentes, irresponsáveis e pessoas bêbadas pelo poder decidiu por uma ação que estava fadada a resultar em pessoas mortas e feridas. O que aconteceu foi um crime, contra Israel. Nenhuma pessoa sensata em Israel ou no exterior vai comprar a coleção de mentiras e pretextos com os quais os responsáveis estão tentando justificar-se”.
 
Fica evidente que esse diário está condenando o desempenho dos executores da ação e não a ação em si, tentando limitar as responsabilidades aos que diretamente ordenaram o ataque. Contudo, como o primeiro-ministro Netanyhau e o chanceler Lieberman endossaram o assalto à “Flotilha da Liberdade”, a coleção de mentiras e pretextos se estende ao governo de Israel.
 
O embaixador de Israel no Brasil, Giora Becher, em seu artigo Soldados corriam perigo de vida; reação foi de autodefesa” ,publicado na Folha de S. Paulo de 1º de junho , subscreve, sem tirar nem pôr , a coleção completa.
 
Diz o Sr. Becher que:

“... soldados da marinha israelense embarcaram em uma frota de seis navios que tentavam violar o bloqueio marítimo em Gaza.”

Embarcar em navios se embarca pelo portaló e não descendo de cordas de helicóptero ou a partir de velozes barcaças de assédio. Isto é invasão, é assalto militar. Depois a flotilha estava em águas internacionais e o bloqueio marítimo unilateral, à luz do direito de navegação, máxime pacífico, é absolutamente ilegal.
 
Afirma mais o embaixador que:

“... militantes a bordo do Marmara Mavi atacaram os soldados com armamentos como pistolas , facas e paus ”.

As primeiras declarações dos participantes da flotilha eram de que, em absoluto, não estavam armados. E que os marinheiros israelenses chegaram atirando. A cineasta brasileira Iara Lee, que estava a bordo do navio Mari Marmara, em entrevista à própria Folha de S. Paulo declarou que:

“... no meio da noite , em águas internacionais , os israelenses chegaram e começaram a atacar de maneira indiscriminada . Foi uma coisa de surpresa , de repente . Eu esperava que eles atirassem nas pernas ou para o alto , só para aterrorizar as pessoas , mas eles foram atacando direto , alguns foram atingidos na cabeça”.

Cenas filmadas no convés do barco turco “Mavi Marmara” – que estão rodando o mundo, mas são quase invisíveis nas redes norte-americanas – não permitem qualquer dúvida sobre o que aconteceu. Comandos vestidos de negro, em trajes à prova de bala, armados até os dentes, abordaram o comboio a partir de barcos infláveis de alta velocidade, detonaram granadas de efeito moral e gás lacrimogêneo e atiraram a esmo, munição real, contra tudo o que viam – e um helicóptero militar sobrevoava os barcos . A certa altura, ouve-se o comandante turco do Marmara dizer, em inglês :

“Ninguém tente qualquer resistência. Estão armados com munição [real].”

Era madrugada, estava escuro e grande parte dos manifestantes estava dormindo. Esta afirmação violenta a lógica: é possível enfrentar soldados fortemente armados e atacá-los com facas e paus? Muito provavelmente se defenderam com o que podiam, com paus e facas.
Em seguida declara:
”... o ataque contra os soldados israelenses foi premeditado. As armas utilizadas foram preparadas com antecedência.”
O sr. Becher acha mesmo que é preciso preparar com antecedência facas e paus? Dizer, em defesa dessa tese, que Huwaida Arraf, um dos organizadores da flotilha, afirmara :
"Os israelenses vão ter que usar a força para nos parar”, é risível.
Podemos interpretá-la como:
“... nós vamos seguir em frente com a nossa missão. Para nos parar os israelenses vão ter que usar a força”.
O mesmo se pode dizer da frase de Bulent Yildirim, o líder do IHH ( Fundo de Ajuda Humanitária ) e um dos organizadores da missão humanitária :
"Vamos resistir, e a resistência irá vencer".
Ele não falou em resistência armada, nem mesmo a armada com paus e facas .
O Sr. Becher reconhece que a flotilha exercia “legítimas atividades humanitárias”, mas que o grupo organizador:

“... tem orientação antiocidental e radical e apoia redes islâmicas radicais como o Hamas e elementos do jihad global, como a Al Qaeda”.

Essa é uma das mentiras da coleção de que fala o Há’Aretz. A bordo da frota havia gente de 38 nacionalidades e o grupo organizador é composto por várias personalidades comprovadamente ligadas historicamente a atividades humanitárias.
 
Acompanhe agora este “raciocínio” do embaixador:
“O Hamas, que controla Gaza, já lançou mais de 10 mil foguetes contra civis israelenses e atualmente está envolvido no contrabando de armas e suprimentos militares na região, por terra e mar, a fim de fortalecer suas posições e continuar seus ataques contra Israel.”
Sendo o Hamas isso tudo, então Israel tem o direito de agredir uma flotilha de navios civis, com carga de materiais não militares – comprovada pelos próprios israelenses no porto de Ashdod para onde foram levadas as embarcações – e assassinar quem se opuser a sua criminosa ação, ainda que seja com paus e facas.
Diz mais o Sr. Becher que:

“... a frota recusou repetidas ofertas de Israel para que os suprimentos fossem entregues no porto de Ashdod e transferidos por passagens terrestres existentes, em conformidade com os procedimentos estabelecidos.”

Esses procedimentos são estabelecidos por Israel unilateralmente que deixa passar o que quer. Agora mesmo, com os barcos sequestrados ancorados no porto de Ashdod, as autoridades israelenses retiveram cimento e tubos de hidráulica. E essas mesmas autoridades confessaram que não havia armas a bordo. Por que então a flotilha haveria de entregar os bens a Israel e não diretamente às autoridades constituídas de Gaza. Era e é uma opção legítima dos organizadores da “Flotilha da Liberdade”.
 
Enfiar o caso do soldado Gilad Shalit na argumentação, Sr. Becher, é uma falácia e uma tentativa de comover o leitor desavisado. O caso Shalit tem a ver com uma eventual troca de prisioneiros a ser tratada pelas partes e até com a intervenção da Cruz Vermelha e nada com o caso em tela.
À coleção de mentiras e pretextos de que fala o Ha’Aretz, o embaixador:
“Ao ficar claro que a frota tinha a intenção de violar o bloqueio, os soldados israelenses, que não empunhavam armas, embarcaram nos navios e os redirecionaram para Ashdod.”
Na própria imprensa israelense, as críticas se multiplicam contra a “desastrada interceptação militar” e uma das questões centrais levantadas pela mídia é:
“Por que Israel enviou um comando de elite, treinado para situações de guerra, para lidar com ativistas?”
O senhor já imaginou um comando militar de elite que não porta armas letais? O senhor acredita mesmo que:
“... os soldados israelenses corriam perigo de vida e agiram em autodefesa porque foram atacados com tacos, facas, machados e objetos pesados?”.
Assim como ocorreu com o Relatório Gladstone sobre os crimes de guerra em Gaza, com o relatório da Anistia Internacional sobre a crise humanitária que assola o povo palestino em Gaza, a verdade virá à tona. E com ela, desta vez, as conseqüências que os lutadores por uma paz justa e negociada, os partidários da justiça e dos direitos humanos, os defensores do direito internacional, sejam Nações Unidas, governos, instituições multilaterais, esperam ver acontecer.
 
Max Altman
1º de junho de 2010

Comentário do Embaixador Arnaldo Carrilho

Um dia, os EUA, diante das barras de algo como uma Corte Internacional de Justiça, serão submetidos a um julgamento serio, por todos os crimes cometidos na construção do seu Império. O tribunal da Historia já os condenou, e nem se precisa recorrer a Hiroxima e Nagasaqui, por exemplo. No que se refere ao Oriente Médio, a indução de Israel a cair nos braços do "ocidentalismo" provocou o abandono dos princípios fundamentais do judaismo, cerne de uma cultura e crença orientais, e suas derivadas (cristianismo, Islam e Feh Bahai). Como o grande Leibowitz não se cansava de repetir: "todos os estados tem uma Força Armada, mas a de Israel tem um Estado".

Não dá mais para recorrer à "industria da Shoah" (Finkelstein) para justificar sua existência, de vez que as vítimas sobreviventes do grande genocídio tornaram-se mestras da Mentira, nos governos da Terra da Promissão, como seus algozes nazi-fascistas. Nascido, em principio, de uma enorme tragédia, o Estado de 1948 traiu os que cultivavam o Sonho Hebraico da Palestina (1881-1947). Se Lorde Balfour ressuscitasse, constataria o ex-Primeiro Ministro e Secretario de Estrangeiros, que nao foi bem esse Lar Judaico que sua notória carta preconizava (1917). Ela já fora, aliás, precedida pelo safadíssimo Acordo Sykes-Picot.

Abraços do
Arnaldo C.


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