sexta-feira, 17 de maio de 2013

Pepe Escobar: “Luta livre/vale-tudo – e é EUA vs Europa”


17/5/2013, Pepe Escobar (de Paris), Asia Times Online - The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ver também:  
12/3/2013, redecastorphoto, em: Pepe Escobar : “A Queda da Casa da Europa”


Amantes do turboneoliberalismo, rejubilem – e levem suas garrafas de Moet para os assentos do gargarejo, junto ao ringue; nenhuma luta livre vale-tudo superará, nessa temporada, os rounds de abertura do combate entre dois gigantes ocidentais. Esqueçam o tal de “pivoteamento” do Pentágono para a Ásia sem nunca sair do Oriente Médio; nada se compara a essa viagem às entranhas do turbocapitalismo digna de um neo-Balzac.

Falamos aqui de um novo Santo Graal – negócio de livre mercado entre EUA e a União Europeia: e o advento de um mercado transatlântico gigante, interno (25% das exportações globais; 31% das importações globais; 57% do investimento externo), no qual bens e serviços (mas não pessoas) circularão “livremente”, coisa que, na teoria, extrairá Europa do fundo de seu atual poço.

O problema é que, para chegar a esse Valente Novo Mundo presidido pela Deusa Mercado, a Europa terá de renunciar a parte considerável de seu complexo de leis (sobre a administração da justiça, ambientais, culturais e sanitárias).

Nesse paraíso burocrático kafkiano/orwelliano também conhecido como Bruxelas, hordas de homens sem rosto  parecidos com os homens de chapéu coco de Magritte  já começam a reclamar dessa “aventura”. Há consenso crescente de que a Europa tem tudo a perder e pouco a ganhar nesse arranjo, em contraste com os muito ridicularizados inimigos da integração europeia, caso dos fanáticos a favor de uma Europa “pró-EUA” e “ultraliberal”.

Outra vez, é aquele tal de perigo amarelo

O Perigo Amarelo
A coisa vai ficando cada vez mais e mais esquisita, se se observa que a grande maioria das nações europeias vêm desejando, há tempos, um negócio desse tipo, de livre mercado – bem diferente dos EUA sempre protecionistas.

A Comissão Europeia (CE) estima que o PIB da União Europeia como um todo crescerá 0,5% – nada que se descreva como “números chineses”. Os norte-americanos, esses sim, estão excitadíssimos: o Senado norte-americano estima que, sem barreiras aduaneiras, as exportações para a Europa crescerão coisa próxima de 20%.

O xis da questão, para fechar o negócio, será harmonizar leis e regras que têm sido acusadas de bloquear totalmente a livre circulação de bens. “Harmonizar” significa diluir todas as regras e leis europeias. E é aí que a coisa pega: Washington não quer só um acordo transatlântico. A meta final é implantar, pedra sobre pedra, um acordo “venha quem quiser” livre global, que em seguida passará a ser imposto por todo o planeta; é a chave para a abertura total do mercado chinês, absolutamente sem qualquer limitação, para as corporações ocidentais.

O German Marshall Fund of the United States  vai direto ao ponto: o capitalismo ocidental terá de continuar como norma universal, contra a “ameaça” do capitalismo chinês administrado pelo Estado. A ironia é que o capitalismo chinês foi, é – e continuará a ser – a salvação e o salvador, na crise massiva pela qual passa o capitalismo ocidental.

O negócio entre EUA e UE está previsto para ser a cereja do bolo dos negócios que os EUA já estão fechando com nações asiáticas, uma a uma. Não há absolutamente qualquer dúvida sobre qual o lado mais forte. O presidente Barack Obama dos EUA já está mergulhado em operação de Relações Públicas de alto risco, repetindo, cada vez que abre a boca, que a Europa não está encontrando fórmula que a faça crescer. E os EUA podem contar também com elementos quinta-coluna, como o Comissário Europeu para o Comércio, Karel De Gucht, para quem os franceses – que defendem inúmeras exceções – já estão isolados.

Que ninguém se engane: Washington está partindo para a degola, estilo Homem-de-ferro 3 – para atropelar-esmagar as regras sanitárias e de fiscalização fitossanitárias, para “liberar” todo e qualquer alimento, tudo que seja ou venha a ser geneticamente modificado, de carne inchada com hormônios a Frango ao Cloro. As regras estabelecidas pelos homens sem rosto de Bruxelas têm sido regularmente ridicularizadas em Washington como “não científicas”, ao contrário da regra-nenhuma que os norte-americanos pregam.

Jose Manuel Barroso: o mais chapéu coco dos homens do chapéu coco

Cidadãos europeus surpreendidos, só agora se dão conta de que foi a União Europeia quem propôs o negócio todo aos EUA – não o contrário. União Europeia, aqui, significa a Comissão Europeia. E é quando bile chega à goela: tudo é, sobretudo, efeito da ambição de um único homem (um português) contra a honra de um país inteiro (a França).

José Manuel Barroso
Acrescente-se que a negociação recebeu luz verde diretamente, pessoalmente, de Obama; e, com o Congresso dos EUA interferindo em todos os níveis, o resumo é que para os norte-americanos “tudo está sobre a mesa” – frase-código para “queremos tudo e não cederemos nem um palmo de terreno”.

A França – já apoiada pelos ministros da Cultura de 12 nações – quer que a indústria do audiovisual seja excluída de todas as negociações, em nome de sua muito premiada “exceção cultural”. A França é um dos raros países no planeta – a China é outro assunto, completamente diferente – ainda não afundado no pântano dos produtos hollywoodianos.

Se não for assim, Paris vetará tudo – embora, off the record, funcionários franceses admitam que não têm poder para vetar coisa alguma: as corporações francesas desejam furiosamente fechar o negócio.

Seja como for, Paris combaterá contra tudo, da “exceção cultural” às normas sanitárias/ambientais, mais cruciais. A Itália acompanhará a França em várias frentes: já há revolta declarada na Itália, sublimemente artesanista, contra o futuro horrendo que aguarda a humanidade, obrigada a consumir formaggio parmigiano, prosciutto di Parma e vinhos Brunello, made in USA.

Formaggio parmigianoprosciutto di Parma i vino Brunello (made in USA?)
Em front diferente é garantido que Washington não abrirá o mercado dos EUA aos serviços financeiros ou transportes marítimos europeus. Só um exemplo do muito que a Europa tem a perder, sem ganhar praticamente coisa alguma.

No frigir dos ovos, tudo se resume na ambição cega de um burocrata europeu, funcionário de carreira, inigualavelmente medíocre – o presidente português da Comissão Europeia, Jose Manuel Barroso. Barroso espera obter um mandado para negociar em nome de todos os estados-membros, dia 14 de junho. E espera que as negociações estejam concluídas antes do fim de sua presidência, que terminará em novembro de 2014.

Diplomatas da União Europeia, audivelmente enfurecidos, confirmaram off the Record a esse Asia Times Online, que Barroso montou essa formidável operação praticamente sozinho, à espera de uma simpática futura recompensa de seus patrões (em Bruxelas? Nada disso! Em Washington). Barroso quer ser secretário-geral, ou da ONU ou da OTAN. Ninguém chega a qualquer desses postos sem luz verde de Washington.

Isso explica que o chefe de Gabinete de Barroso, nomeado embaixador da União Europeia em Washington, esteja furiosamente lobbyando para os norte-americanos, com os embaixadores de Portugal nos EUA e na União Europeia.

Estão abertas as apostas: quem vencerá esse combate de luta livre vale-tudo no mundo do capital? É possível, sim, que os estados membros da União Europeia votem, mesmo, contra os próprios interesses. Mas outra coisa, completamente diversa, seria uma ensurdecedora irrupção de fúria, na ruas, dos próprios cidadãos europeus, já tão duramente supliciados.

É. Essa nova saga do turbocapitalismo ocidental reúne todos os elementos para ser... bastante revolucionária.





Nota dos tradutores
[1] Orig. catfight, que designa briga a tapas, mordidas, puxões de cabelo e unhadas, quase sempre entre mulheres. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Um golpe comunista no Brasil



Publicado em 16/05/2013 por [*] Urariano Motta

Recife (PE) - Karl Marx, o barbudo com previsões do demônio, havia anunciado já em 1848:

Um fantasma ronda a Europa - o fantasma do comunismo”.

Mas para que Europa? Os comunistas do Brasil, incansáveis e mais duradouros que as gerações do Fantasma da história em quadrinhos, voltaram à carga com esperteza enganadora. 

Para conseguir o que desejam, se uniram numa santa aliança todas as potências da velha ideia socialista, dos petistas aos comunistas de todas as tendências, dos inocentes úteis aos radicais da França e aos policiais da fronteira. Numa frase: anunciam a contratação de 6.000 médicos cubanos para o Brasil. Leram bem: SEIS MIL agentes de Cuba, 6.000 guerrilheiros, 6.000 subversivos para agitar a insidiosa e alienígena ideologia entre os pobres e miseráveis de todas as raças no Brasil.   
Duas conclusões decorrem desses fatos:

1ª) O comunismo já é reconhecido como uma força por todas as potências no poder, da Venezuela ao Brasil.

2ª) É tempo de os comunistas exporem diante do mundo inteiro seu modo de agir, seus objetivos e suas tendências, contrapondo um manifesto de esperteza do próprio partido ao fantasma do comunismo, que os revolucionários de primeiro de abril pensavam estar morto. 

Com este fim, reuniram-se em Brasília comunistas de várias nacionalidades e redigiram o manifesto antipatriótico seguinte, que será publicado em inglês, francês, alemão, italiano, flamengo e dinamarquês:
A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas da classes. Pobres e ricos, homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, atendidos em hospitais de qualidade e indigentes, numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada, uma guerra que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela morte dos que nada têm, nem mesmo uma cafiaspirina para uma enxaqueca.

Por isso, estamos nos organizando para receber um maior número de médicos cubanos,  tendo em vista o déficit de profissionais de medicina de conscientização no Brasil. Trata-se de uma cooperação que tem um grande potencial de esclarecimento de direitos fundamentais dos pobres, e ao qual atribuímos um valor estratégico para o futuro social do Brasil.

A importação da melhor medicina socialista do mundo não pode ser um tabu. Nas primeiras épocas históricas, verificamos quase por toda parte uma completa divisão da sociedade em classes distintas, uma escala graduada de condições sociais. No Brasil, moradores da periferia e dos grandes centros. Na Roma antiga eram os patrícios, cavaleiros, plebeus, escravos; na Idade Média, senhores feudais, vassalos, mestres, oficiais e servos, e, em cada uma destas classes, gradações especiais. Até atingir o caboclo perdido na Amazônia.

A sociedade burguesa moderna, que brotou das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classes. Pelo contrário, no Brasil não fez senão substituir velhas classes, velhas condições de opressão, velhas formas de luta por outras novas. Entretanto, a nossa época, a época da burguesia, caracteriza-se por ter simplificado os antagonismos de classes. A sociedade divide-se cada vez mais em dois vastos campos opostos, em duas grandes classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado, com saúde e sem saúde, respectivamente”.

Assim se manifestaram o Ministro que leva o injusto nome de Patriota, patriota!, depois do encontro com o seu colega de ideologia, o Chanceler de Cuba, Bruno Rodríguez. E com ele o seu cúmplice, o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha,
Mas não esmoreceremos. A Associação Médica Brasileira vai acionar a Justiça e levar a classe, dos MÉDICOS, para as ruas, caso a ex-terrorista Dilma Rousseff importe médicos cubanos. O presidente da associação Floriano Cardoso afirmou que o governo será o “responsável direto por erros, complicações e mortes que poderão ocorrer caso médicos incompetentes passem a atender a população”.

A Venezuela de hoje não será o Brasil de amanhã. Se nos Estados Unidos 25% de médicos são estrangeiros, se na Inglaterra os alienígenas são 40%, se no Canadá os espiões chegam a 22%, e se na Austrália, 17%., aqui, não. 
No Brasil, os comunistas médicos ainda não chegam a 1 por cento! Disso não passarão.
(Modesta contribuição do colunista ao movimento surgido no Facebook, Golpe Comunista 2014 no Brasil)

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[*] Urariano Motta é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Enviado por Direto da Redação

Israel: antissemita e colonialista


14/5/2013, Joseph Massad, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Joseph
Massad




Joseph Massad é professor de Política Árabe Moderna e História Intelectual na Columbia University, em New York. É autor de: The Persistence of the Palestinian Question: Essays on Zionism and the Palestinians.




O holocausto judaico matou a maioria dos judeus que lutaram contra o anti-semitismo europeu, incluindo o sionismo, escreve Joseph Massad. Foto AFP.
Os judeus que se opunham ao sionismo compreenderam, desde o início, que o movimento incorporava o antissemitismo em seu diagnóstico do que os europeus chamavam de “a questão judaica”. O que mais horrorizava os judeus antissionistas, contudo, era que o sionismo também partilhava a “solução” para a Questão Judaica que os antissemitas sempre haviam pregado, a saber: que os judeus tinham de ser expulsos da Europa.

Foi a Reforma Protestante, que fez renascer a Bíblia Hebraica, que ligou os modernos judeus da Europa aos antigos hebreus da Palestina, ligação que os filólogos do século 18 solidificariam mediante a descoberta da família das línguas “semitas”, que incluiriam o hebraico e o árabe. Por um lado, os Protestantes Milenaristas insistiam em que os judeus contemporâneos seriam descendentes dos antigos hebreus e tinham de deixar a Europa e voltar à Palestina, para apressar a segunda vinda de Cristo; por outro lado, as descobertas filológicas levaram a rotular os judeus contemporâneos de “semitas”. O salto que as ciências biológicas de raça e hereditariedade dariam no século 19 e que levaria a definir os judeus europeus contemporâneos como descendentes raciais dos antigos hebreus, nem teve, afinal, de ser salto muito grande.

Baseando-se nas conexões criadas por Protestantes Milenaristas anti-judeus, abundavam, no século 19, europeus seculares que rapidamente perceberam o potencial político de “devolver” os judeus à Palestina. Menos interessados, que os Milenaristas, em apressar alguma segunda vinda de Cristo, esses políticos seculares, de Napoleão Bonaparte e do ministro britânico de Relações Exteriores, Lord Palmerston (1785-1865) a Ernest Laharanne, secretário particular de Napoleão III nos anos 1860s, tinham interesse em expulsar os judeus, da Europa para a Palestina, para instalá-los lá como agentes do imperialismo europeu na Ásia.

Wilhelm Marr
Esse projeto seria abraçado por muitos “antissemitas” – novo rótulo logo divulgado por racistas europeus antijudeus, depois que a palavra foi criada, em 1879, por um obscuro jornalista vienense, Wilhelm Marr, que divulgava uma plataforma-programa político intitulado “A vitória do judaísmo sobre o germanismo.  Marr teve o cuidado de separar bem o antissemitismo e a história do ódio dos cristãos contra judeus, de base religiosa. E enfatizava, na linha da filologia semítica e das teorias raciais do século XIX, que a diferença entre judeus e arianos era estritamente racial.

Assimilar os judeus na cultura europeia

O antissemitismo científico insistia em que os judeus seriam diferentes dos cristãos europeus. Que, de fato, os judeus absolutamente não seriam europeus, e que a presença deles na Europa seria a causa do antissemitismo. A razão pela qual os judeus causariam tantos problemas aos cristãos europeus teria a ver com a sempre repetida “ausência de raízes”, que não tinham pátria e, portanto, nenhuma lealdade a pátria alguma. No período romântico dos nacionalismos europeus, os antissemitas diziam que os judeus não teriam lugar nas novas configurações nacionais, e minariam a pureza racial e nacional essencial na maioria dos nacionalismos europeus. Por isso, se os judeus permanecessem na Europa – argumentavam os antissemitas – só gerariam hostilidade entre os cristãos europeus. A única solução seria os judeus deixarem a Europa e terem pátria própria.

Desnecessário dizer que os judeus religiosos e seculares sempre se opuseram a essa horrenda linha de pensamento antissemita. Judeus ortodoxos e reformistas, judeus socialistas e judeus comunistas, judeus cosmopolitas e judeus Yiddishkeit culturais todos concordavam que aí estava uma perigosa ideologia de hostilização que visava a expulsar os judeus de seus respectivos países europeus.

O Iluminismo Judeu (Haskalah), que também emergiu no século XIX, buscou assimilar os judeus na cultura secular europeia, induzindo-os a abandonar sua cultura judaica. Foi esse Iluminismo Judeu que tentou quebrar a hegemonia dos rabinos judeus ortodoxos no “Ostjuden” do shtetl leste-europeu, propondo um rompimento com o que era visto como uma cultura judaica “medieval”, em favor da moderna cultura secular dos cristãos europeus. A reforma do judaísmo, para convertê-lo em variante assemelhada a um cristianismo-protestantismo judeu, emergiria do fundo do Iluminismo Judeu. Mas esse programa visava a integrar os judeus na modernidade europeia, não a expulsá-los para longe da geografia da Europa.

Quando surgiu o sionismo, 15 anos depois da publicação da plataforma-programa antissemita de Marr, ele incorporaria todas essas ideias anti-judeus, inclusive o antissemitismo científico.

Theodor Herzl
Para o sionismo, os judeus seriam “semitas”, descendentes dos antigos hebreus. No seu panfleto de fundação, O Estado Judeu [Der Judenstaat], Herzl explicava que seriam os judeus, não seus inimigos cristãos, os que “causavam” o antissemitismo; e que “onde [o antissemitismo] não existe, para lá os judeus o levam no curso de suas migrações”. Que “os infortunados judeus estão nesse momento levando as sementes do antissemitismo para a Inglaterra; já o introduziram nos EUA”; que os judeus seriam “uma nação” que devia deixar a Europa, para restaurar a própria “nacionalidade” na Palestina ou na Argentina; que os judeus deveriam copiar os cristãos europeus em termos culturais e abandonar suas línguas e tradições em favor das modernas línguas europeias, ou restaurar a própria antiga língua nacional. Herzl preferia que todos os judeus adotassem o alemão, como idioma; mas os sionistas do leste da Europa preferiram o hebraico. Os sionistas depois de Herzl decidiram e afirmaram que os judeus seriam racialmente diferentes dos arianos. Quanto ao iídiche,  a língua viva da maioria dos judeus europeus, todos os sionistas concordavam que tinha de ser esquecida para sempre.

A maioria dos judeus continuou a resistir contra o sionismo e via seus preceitos como antissemitismo e como continuação do esforço do Iluminismo Judeu para apagar a cultura judaica e assimilar os judeus na cultura laica europeia, com a diferença de que o sionismo queria os judeus longe da Europa, em ponto geograficamente distante, depois de expulsos da Europa.

O Bund – Sindicato Geral do Trabalho Judeu na Lituânia, Polônia, e na Rússia – que foi fundado em Vilna no início de outubro de 1897, poucas semanas depois do 1º Congresso Sionista em Basel, no final de agosto de 1897, viria a ser o mais empenhado inimigo do sionismo. O Bund uniu-se à coalizão já existente de judeus contra o sionismo, de rabinos ortodoxos e reformistas, que já unira forças alguns meses antes para impedir que Herzl realizasse o primeiro congresso sionista em Munique; por isso o congresso foi transferido para Basel. Os judeus antissionistas, e os antissionistas em geral, em toda a Europa e nos EUA, contavam com o apoio da maioria dos judeus, que, já bem entrados os anos 1940s, continuavam a ver o sionismo como movimento anti-judeus.

A coalizão antissemita de entusiastas sionistas

Percebendo que seu plano para o futuro dos judeus europeus seguia de perto os antissemitas, Herzl arquitetou uma precoce aliança estratégica com os antissemitas. Em O Estado Judeu, Herzl diz que “Os governos e todos os países acusados de antissemitismo muito se interessarão por nos ajudar a obter a soberania que desejamos”.

Vyacheslav von Plehve
Acrescentava que todos deviam contribuir, “não apenas os judeus pobres”, para um fundo de imigração para judeus europeus; que devem contribuir também “todos os que querem ver-se livres dos judeus”. No seu Diário, Herzl anotou sem arrependimentos, que “Os antissemitas serão nossos mais confiáveis amigos. Os países antissemitas serão nossos aliados”. Assim, em 1903, Herzl começou a reunir-se com os mais infames antissemitas, como o ministro do Interior da Rússia, Vyacheslav von Plehve, que supervisionou os pogroms contra judeus na Rússia. Herzl procurou ativamente essa aliança. Não foi absolutamente “por coincidência”, que o antissemita Lord Balfour, primeiro-ministro britânico em 1905, tenha feito aprovar em seu governo a “Lei dos Estrangeiros”, que impedia que judeus do leste europeu fugissem dos pogroms russos para a Inglaterra. Balfour declarou que a proibição salvaria a Inglaterra do “mal absoluto” que seria “uma onda de imigração predominantemente de judeus”. A infame declaração de Balfour, de 1917, para criar na Palestina “um lar nacional” para o “povo judeu” visava, dentre outros objetivos, a minar o apoio dos judeus à Revolução Russa e a cortar o fluxo de novas ondas de imigrantes judeus para a Grã-Bretanha.

Os nazistas não seriam exceção nessa cadeia de sionistas antissemitas

Os sionistas também construíram acordo com os nazistas, bem no início da história do sionismo. Em 1933, o infame Acordo de Transferência (Ha’avara) foi assinado entre os sionistas e o governo nazista, para facilitar a transferência de judeus alemães e suas propriedades para a Palestina; esse acordo quebrou o boicote internacional dos judeus, contra a Alemanha Nazista, iniciado por judeus norte-americanos.

E foi nesse espírito também que emissários nazistas foram enviados à Palestina, para relatar os sucessos da colonização judaica do país. Adolf Eichmann retornou de sua viagem à Palestina em 1937, cheio de histórias fantásticas sobre as realizações do  Ashkenazi Kibbutz, racialmente separatista, um dos que visitou no Monte Carmelo, como convidado dos sionistas.

Contra forte oposição da maioria dos judeus alemães, a Federação Sionista da Alemanha foi o único grupo judeu que apoiou as Leis de Nuremberg de 1935. Concordavam com os nazistas: judeus e arianos eram raças separadas e separáveis. Esse apoio nada teve de tático: foi apoio nascido de afinidades e semelhanças ideológicas. A Solução Final dos nazistas foi cerebrada, de início, para expulsar os judeus alemães para Madagascar. O objetivo partilhado de expulsar os judeus para fora da Europa, como raça inassimilável, gerou a afinidade, que sempre existiu, entre os nazistas e os sionistas.

Enquanto a maioria dos judeus continuava a resistir contra a base antissemita do sionismo e suas alianças antissemitas, o genocídio nazista não matava apenas 90% dos judeus europeus. No processo, matou também a maioria dos judeus inimigos do sionismo. Morreram, precisamente, porque se recusaram a obedecer à palavra de ordem dos sionistas, para que abandonassem suas casas e seus países de nascimento.

Depois da Guerra, nem o horror do holocausto de judeus impediu que países europeus continuassem a apoiar o programa antissemita do sionismo. Ao contrário: esses países partilhavam, com os nazistas, uma predileção pelo sionismo. Opuseram-se exclusivamente ao genocídio programado concebido pelos nazistas. Países europeus, tanto quanto os EUA, recusaram-se a receber centenas de milhares de judeus sobreviventes do holocausto. Esses países, até, votaram contra uma resolução da ONU, apresentada pelos Estados árabes, em 1947, que os conclamava a receber judeus sobreviventes. Esses mesmos países apoiariam, em seguida, em novembro de 1947, o Plano de Partição da ONU, para criar um estado judeu na Palestina, para onde pudessem ser descartados aqueles indesejados refugiados judeus

As políticas pró-sionistas dos nazistas

Os EUA e países europeus, inclusive a Alemanha, dariam prosseguimento às políticas pró-sionistas dos nazistas. Governos pós-guerra da Alemanha Ocidental que se apresentaram para abrir nova página no relacionamento com os judeus, não fizeram, de fato, coisa alguma nessa direção. Desde que o país foi criado, depois da 2ª Guerra Mundial, todos os governos da Alemanha Ocidental (e, depois, todos os governos alemães a partir da unificação, em 1990) mantiveram, sem qualquer alteração, as políticas nazistas pró-sionistas. Jamais houve qualquer tipo de afastamento, entre os recentes governos alemães e os nazistas pró-sionistas. A única coisa que já não se vê é o ódio declarado aos judeus, com fundamento genocida racial, que o nazismo consagrou. Mas persiste, inalterado, o desejo de ver os judeus em “país próprio”, em algum ponto da Ásia, bem longe da Europa. De fato, os alemães assim explicam a quantidade de dinheiro que enviavam a Israel, para, como diziam, ajudar a pagar os custos de realocar, lá, os refugiados judeus.

Depois da 2ª Guerra Mundial, emergiu um novo consenso nos EUA e na Europa, segundo o qual os judeus teriam de integrar-se postumamente à europeidade branca; o horror do holocausto de judeus já era, então, horror ante o assassinado de europeus brancos. Desde os anos 1960s, os filmes de Hollywood sobre o holocausto de judeus passaram a mostrar os judeus vítimas do nazismo como infalivelmente brancos, como cristãos de classe média, letrados, bem educados, em nada diferentes dos cristãos europeus e norte-americanos os quais deveriam, como aconteceu, identificar-se com eles. Se os filmes mostrassem os judeus religiosos pobres da Europa Ocidental (e muitos judeus do Leste da Europa mortos pelos nazistas eram pobres e muitos eram religiosos), os cristãos brancos dificilmente veriam qualquer traço comum entre aqueles judeus e eles próprios.

Portanto, o horror europeu cristão pós-holocausto e genocídio de judeus europeus não se baseou no horror ante o massacre de milhões de pessoas diferentes dos cristãos europeus, mas, isso sim, se baseou no horror ante o assassinato de pessoas em tudo idênticas aos cristãos europeus.

Só isso explica que nos EUA, país que nada teve a ver com o massacre de judeus europeus, haja mais de 40 memoriais do holocausto de judeus e um grande museu dos judeus assassinados da Europa... mas não haja um único memorial do holocausto de populações nativas da América do Norte, ou do holocausto de afro-norte-americanos, pelos quais os EUA são diretamente responsáveis.

Aimé Césaire compreendeu muito bem esse processo. Em seu famoso discurso sobre o colonialismo, disse que a visão retrospectiva dos cristãos europeus sobre o nazismo é que:

Aimé Césaire
... é barbárie, mas a barbárie suprema, a coroação da barbárie, que soma todas as barbáries e barbarismos diários; é o nazismo, sim, mas porque, antes de tudo, as vítimas foram europeus. Mas antes, de serem suas vítimas, os europeus haviam sido seus cúmplices; e então eles toleraram o nazismo, antes que se virasse contra eles mesmos, eles já o haviam absolvido antes, fecharam os olhos, o legitimaram, porque, até ali, só se aplicara contra povos não europeus. Eles cultivaram o nazismo, responsabilizaram-se pelo nazismo, antes de que o nazismo engolfasse todo o ocidente, as civilizações cristãs, também, no mesmo mar de sangue. O nazismo vaza, estala, ferve em cada fresta do ocidente.

É bem verdade que, para Césaire, as guerras e holocaustos nazistas sempre foram o colonialismo que se atacava, ele mesmo, por dentro. Mas depois que as vítimas do nazismo foram convertidas em europeus brancos sem religião e “reabilitadas”, a Europa e seu cúmplice norte-americano puderam, afinal, dar continuidade à mesma política dos nazistas, de horror praticado contra não brancos em todo o mundo: na Coreia, no Vietnã e na Indochina, na Argélia, na Indonésia, na América Central, na América do Sul, na África do sul e central, na Palestina, no Irã e no Iraque e no Afeganistão.

A reabilitação dos judeus europeus depois da 2ª Guerra Mundial foi parte crucialmente importante da propaganda da Guerra Fria. Com os cientistas sociais e ideólogos norte-americanos ocupados em desenvolver a teoria do “totalitarismo” – segundo a qual o Comunismo Soviético e o Nazismo seriam essencialmente o mesmo tipo de regime – os judeus europeus, vítimas de um regime totalitário, passaram a ser item central do show de atrocidades que, para a propaganda dos EUA e da Europa Ocidental, seriam “provas” das atrocidades que o regime soviético estaria cometendo nos períodos pré e pós guerra. Parte da mesma propaganda foi Israel saltar para o mesmo vagão de propaganda e pôr-se acusar os soviéticos de antissemitismo, porque estariam impedindo judeus soviéticos de se autoexpulsar da própria terra e partir para Israel  

Compromisso com o suprematismo branco

Assim se preservou o compromisso de europeus e dos EUA com o suprematismo branco – exceto que passou a incluir os judeus entre os povos “brancos”- e numa civilização que passou a ser chamada “judeu-cristã”. As políticas europeias e norte-americanas depois da 2ª Guerra Mundial, que continuaram inspiradas no racismo e alimentadoras de racismo contra os povos nativos da América do Norte, contra africanos, asiáticos, árabes e muçulmanos continuaram a garantir apoio ao projeto antissemita de “converter” os judeus em brancos, num estado colonial, de ocupação, bem longe da Europa. E ali prosseguiram as políticas antissemitas que prevaleciam na Europa e nos EUA antes da 2ª Guerra.

De diferente, que grande parte do veneno racista antissemita, em Israel, seria dirigido contra árabes e muçulmanos (os mesmos que são cidadãos e imigrantes na Europa e nos EUA, e os que vivem na Ásia e na África). E assim pôde prosseguir, sem qualquer adversário, o apoio dos antissemitas ao sionismo racista.

Na Hungria, 100 mil judeus assustados com racismo

A aliança que uniu a Alemanha Ocidental, o sionismo e Israel, depois da 2ª Guerra Mundial, e que forneceu gigantesca ajuda econômica a Israel nos anos 1950s e ajuda econômica e militar no início dos anos 1960s – inclusive tanques, que Israel usou para matar palestinos e outros árabes – é continuação da aliança que o governo nazista firmara com os sionistas nos anos 1930s.

Ehud Barak
Nos anos 1960s, a Alemanha Ocidental deu até treinamento militar aos soldados israelenses, e desde os anos 1970s também fornece submarinos “nuclearizáveis” produzidos na Alemanha, com os quais Israel contava para matar ainda mais árabes e muçulmanos.

Em anos mais recentes, Israel armou os submarinos mais modernos, que recebe da Alemanha, com mísseis que transportam ogivas nucleares – o que é do pleno conhecimento do atual governo alemão O ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, disse, em entrevista à revista Der Spiegel, que os alemães devem “orgulhar-se” de ter garantido a existência do estado de Israel “durante muitos anos”. Berlim financiou 1/3 do preço dos submarinos, cerca de 135 milhões de euros (168 milhões de dólares) por submarino, com carência até 2015, para que Israel comece a pagar.

Konrad Adenauer
Isso faz da Alemanha cúmplice no ataque-assalto contra os palestinos; e a preocupação que essa cumplicidade geraria aos governos alemães, hoje, não é maior que a que gerava nos anos 1960s ao chanceler Konrad Adenauer, da Alemanha Ocidental, que disse que “a República Federal não tem, nem o direito, nem qualquer responsabilidade de tomar posição no caso dos refugiados palestinos”. Tudo isso se tem de somar aos bilhões, muitos, que a Alemanha pagou ao governo de Israel como compensação pelo holocausto de judeus, como se Israel e o sionismo fossem vítimas do nazismo. Não são. Na verdade, os nazistas assassinaram judeus antissionistas. O atual governo alemão não dá qualquer importância ao fato de que mesmo os judeus alemães que conseguiram fugir dos nazistas e acabaram na Palestina odiavam o sionismo e o projeto sionista; e que os mesmos judeus eram odiados pelos colonizadores sionistas na Palestina.

Como refugiados alemães nos anos 1930s e 1940s na Palestina recusaram-se a aprender língua hebraica e publicavam meia dúzia de jornais em alemão no país, foram furiosamente atacados pela imprensa em hebraico, inclusive pelo jornal Haaretz, que pregou o fechamento dos jornais dos alemães em 1939 e, outra vez, em 1941.

Colonos sionistas atacaram um café de proprietários alemães em Telavive, porque os proprietários recusavam-se a falar hebraico; e a prefeitura de Telavive ameaçou, em junho de 1944, alguns dos moradores judeus alemães, por organizar, na casa onde viviam, n. 21 da rua Allenby, “festas e bailes inteiramente em alemão, inclusive os programas, o que se opõe ao espírito de nossa cidade” e que tal procedimento “não será tolerado em Telavive”.

Judeus alemães, ou Yekkes, como eram conhecidos na [“comunidade original”] Yishuv, até organizaram uma celebração, no aniversário do Kaiser, em 1941 (para esses e outros detalhes sobre os judeus alemães refugiados na Palestina, ver The Seventh Million, livro de Tom Segev).

Acrescente-se a isso o apoio que a Alemanha deu às políticas israelenses na ONU contra os palestinos, e tem-se o quadro completo. Até o novo memorial do holocausto de judeus construído em Berlim, inaugurado em 2005, mantém o mesmo apartheid racial dos nazistas: esse “Memorial dos Judeus Europeus Assassinados” é dedicado só aos judeus vítimas dos nazistas que ainda devem ser mantidos separados, como Hitler ordenou, dos demais milhões de não judeus que também tombaram vítimas do nazismo. Não surpreende, tampouco, que uma subsidiária da empresa alemã Degussa, que colaborou com os nazistas e produziu o gás Zyklon B que foi usado para matar pessoas nas câmaras de gás, tenha sido contratada para construir o Memorial de 2005: apenas confirma que os que assassinaram judeus na Alemanha no final dos anos 1930s e nos anos 1940s lamentam hoje o que fizeram, porque hoje entendem que judeus são brancos europeus a serem homenageados, e jamais deveriam ter sido mortos, para começar, porque eram brancos.

A política alemã de apoiar Israel na matança de árabes é, sim, profundamente conectada ao antissemitismo, que prossegue e avança, conduzido pelo racismo alemão antimuçulmanos, hoje predominante, que ataca imigrantes muçulmanos.

A tradição euro-norte-americana anti-judeus

O holocausto de judeus matou a maioria dos judeus que combateram e lutaram contra o antissemitismo europeu, e contra um de seus ramos, o sionismo. Mortos aqueles judeus combatentes, os únicos “semitas” sobreviventes que continuam a combater contra o sionismo e seu antissemitismo são os palestinos.

Enquanto Israel ainda insiste que judeus europeus não seriam europeus, não teriam lugar na Europa e devem embarcar para a Palestina, os palestinos sempre disseram e insistiram que o lar e a terra dos judeus europeus são seus respectivos países natais, não a Palestina; e que o colonialismo sionista brota diretamente do antissemitismo dos sionistas colonialistas.

Enquanto o sionismo insiste em que os judeus seriam raça separada dos cristãos europeus, os palestinos insistem que os judeus europeus são europeus e nada têm a ver com a Palestina, o povo palestino ou a cultura palestina. Israel e seus aliados norte-americanos e europeus têm tentado ininterruptamente ao longo dos últimos 65 anos convencer os palestinos de que eles também devem tornar-se antissemitas e acreditar, como os nazistas, Israel e seus aliados antissemitas acreditam, que os judeus seriam raça diferente de todos os povos europeus, que sua “pátria” seria a Palestina e – o mais importante – que Israel falaria por todos os judeus.

A evidência de que, hoje, os maiores blocos de eleitores norte-americanos pró-Israel são os protestantes milenaristas e os imperialistas seculares, demonstra bem claramente a continuidade da mesma tradição euro-norte-americana de perseguição aos judeus, que se estende, no passado, até a Reforma Protestante e o imperialismo do século IXX.

Mas os palestinos jamais se deixaram convencer pelos sionistas e continuam a resistir firmemente contra o antissemitismo.

Os judeus europeus foram transformados em instrumentos de agressão: tornaram-se ferramentas do colonialismo dos colonos israelenses, intimamente associado à discriminação racista...

Israel e seus aliados antissemitas afirmam que Israel seria “o povo judeu”; que as políticas de Israel seriam “judaicas”; que as realizações de Israel seriam realizações “dos judeus” e que quem se atrever a criticar Israel estará criticando “os judeus” e, portanto, estará falando como antissemita.

Só o povo palestino organizou e combate luta incansável contra esse incitamento ao antissemitismo. Os palestinos continuam a afirmar que:

... o governo de Israel não fala por todos os judeus, que não representa todos os judeus e que os crimes coloniais que comete contra o povo palestino são crimes do governo de Israel, não são crimes “do povo judeu.

Por isso o governo de Israel tem de ser criticado, acusado, processado e condenado por crimes de guerra, que comete repetidamente contra o povo palestino.

Não é alguma nova posição palestina: é a mesma posição que os palestinos abraçaram desde a virada do século 20, e continuou ao longo da luta palestina antes da 2ª Guerra Mundial, contra o sionismo. Em discurso que fez na ONU, em 1974, Yasser Arafat destacou todos esses aspectos, com veemência:

Yasser Arafat
Assim como o colonialismo usou impiedosamente os desgraçados, os pobres, os explorados, como mera matéria inerte com a qual construir e levar adiante o colonialismo, assim os judeus europeus, também despossuídos, oprimidos, foram usados a favor do imperialismo mundial e da liderança sionista. Os judeus europeus foram transformados em instrumentos de agressão; tornaram-se ferramentas do colonialismo israelense, intimamente aliado à discriminação racial (...).

A teologia sionista foi usada contra nosso povo palestino: o objetivo não foi só o estabelecimento de um colonialismo de estilo ocidental, mas também o de separar os judeus de suas várias pátrias naturais e produzir, assim, que se tornassem estrangeiros nas suas próprias nações. O sionismo está unido ao antissemitismo nesses objetivos retrógrados e é, quando já tudo se disse e se fez, o verso da mesma moeda de base.

Porque, quando se propõe que os judeus de fé, independente de onde tenham nascido e vivido e habitem, devem abandonar a própria terra nacional, impedidos de viver como iguais com os próprios parceiros de destino e cidadãos não judeus, quando se ouvem essas propostas, o que se está ouvindo é o antissemitismo proposto aos próprios judeus. Quando se propõe que a única solução para o problema judeu seria que os judeus se alienassem das próprias comunidades originais ou nações, das quais foram parte histórica, quando se propõe que os judeus resolvam o problema judeu imigrando de onde nasceram para ocupar, à força, terras que pertencem a outros – quando isso acontece, o que se vê é que aí está exatamente a mesma posição pregada, com insistência, com urgência, contra os judeus, pelos antissemitas.

A reação de Israel, para quem todos os seus críticos seriam antissemitas, pressupõe que os críticos devam crer, necessariamente, que Israel representaria “o povo judeu”. Mas essa alegação, que Israel não se cansa de repetir, de que representaria e falaria por todos os judeus, é, ela mesma, o argumento mais antissemita de todos.

Hoje, Israel e as potências ocidentais obram para elevar o antissemitismo ao plano de princípio internacional, em todos do qual tentam estabelecer pleno consenso. Insistem em que, para que haja paz no Oriente Médio, os palestinos, os árabes e os muçulmanos devem tornar-se, todos, como todo o ocidente branco, também antissemitas; que devem esposar o sionismo e reconhecer todas as condições antissemitas que Israel impõe aos judeus de todo o mundo.

Exceto os regimes árabes ditatoriais e a Autoridade Palestina e sua corte, nesse 65º aniversário da conquista antissemita da Palestina pelos sionistas, que os palestinos chamam de Nakba, o povo palestino e alguns poucos judeus antissionistas ainda resistem e recusam-se a aceitar o incitamento internacional a favor do antissemitismo.

Lembrando a Nakba
Dizem que são, como últimos semitas resistentes, herdeiros das lutas pré-2ª Guerra Mundial, quando judeus e palestinos combateram lado a lado contra o antissemitismo e sua manifestação sionista colonial. Hoje, é essa a resistência, ainda viva, que impede o avanço, até a vitória no Oriente Médio e em todo o mundo, do antissemitismo europeu.




Notas dos tradutores
[1] Sobre isso, há documento impressionante, de 1947, publicado nos EUA: uma carta do rei Abdullah da Jordânia, que deve ser lida nos termos em que o autor expõe a questão, naquele momento histórico. Foi traduzido em 2010, seguindo indicação do Embaixador Arnaldo Carrilho do Brasil.  
[2] Sobre judeus, em todo o mundo, que foram empurrados à força, pelos sionistas, para povoar Israel, ver a “Carta aos norte-americanos”, de 1947, do Rei Abdullah da Jordânia. Ver nota [1] acima.
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